Nas palavras do próprio... Dinossauro Excelentíssimo
"- E chegamos ao caso do Dinossauro Excelentíssimo...
- O Dinossauro foi escrito em Londres no Natal de 1970. Entreguei-o à Arcádia, que era uma editora falida, porque naquele momento publicar um retrato grotesco de Salazar era coisa que nenhuma casa ousaria. João Abel Manta aceitou fazer as ilustrações sem hesitação, a Arcádia planeou com alguns livreiros certas precauções na distribuição do livro, mas a grande dificuldade foi descobrir uma tipografia que entrasse na aventura. Descobriu-se, vá lá. Quando o Dinossauro saiu; regressei de Londres para estar presente ao lado do editor e do ilustrador no que viesse a acontecer mas, para assombro de todos nós, em vez da excomunhão que era de esperar, o livro ultrapassou a Censura e teve um acolhimento indescritível. Digo «ultrapassou» porque aconteceu aquele escândalo monumental na Assembleia Nacional, quando o professor Miller Guerra teve a coragem de afirmar que não havia liberdade em Portugal. Foi uma sessão histórica, um berro de heresia! O deputado ultrafascista Casal Ribeiro correu para Miller Guerra a espumar de raiva e para o desmentir citou como prova o infame Dinossauro Excelentíssimo que acabava de ser posto à venda em toda a parte. E, pronto, a partir daí a Censura ficou de mãos atadas. Já não podia apreender o livro que o deputado salazarista tinha citado estupidamente como demonstração da liberdade do regime, e, menos ainda, promover a prisão do autor. Simplesmente, e isso foi realmente um carnaval repugnante, uma vez que a censura oficial se viu impedida de actuar, apareceram as censuras voluntárias de alguns particulares.
- Particulares?
- Um general Câmara Pina, que era combatente medalhado nas heróicas tertúlias do Chiado, foi um deles. Andou pelas livrarias da Baixa mais os velhinhos do chá das cinco, em operação de intimidação, para que o livro fosse retirado das montras. Um industrial (de Santarém, salvo erro) retirou todas as suas encomendas da tipografia que o estava a reimprimir e um administrador da Bertrand, Luiz Forjaz Trigueiros, impediu que o livro fosse reeditado naquela empresa, apesar de já estar assinado o respectivo contrato. Trigueiros era frequentador da Literatura, homem de lobbies financeiros e suponho que sócio da Academia."
Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 36 - 37
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