Nas palavras do próprio... Exílio no Brasil
"Foi consequência de uma leva de prisões que a PIDE (a polícia política) fez a escritores, entre os quais o Alves Redol, por exemplo. Portanto, fui para o Brasil. E no Brasil colaborei no jornal que havia, que era o "Última Hora", mas sempre com pseudónimos. Porque eu, no fundo, pensei sempre que voltava. Para isso, eu não mostrava a cara, porque sabia que o Salazar era um sádicozeco suficiente para usar uma determinada regra: ele batia, depois esquecia, depois tornava a bater. Era como os boxeurs, que dão soco no queixo e seguram a nuca para a pessoa não morrer. De maneira que houve uma coisa que eu escrevi que deu um grande fiasco, em que o embaixador perdeu a cabeça e tudo o mais, que se chamava Retrato de um Comendador. Aquilo era o tempo do Kubichec, e o Kubichec era um tipo muito democrático, era uma vida alegre, o Rio de Janeiro nunca foi tão alegre como naquele tempo. De maneira que eles não ligavam muito ao governo português. Eles não se incomodavam nada, a polícia brasileira nem pensou nisso, tinha mais que fazer. Aliás, os brasileiros tinham uma coisa muito curiosa com o Salazar: é que não lhe ligavam nenhuma. A gente assinava acordos ortográficos todos os dias, eles assinavam também e nunca respeitaram. Eles não ligavam nenhuma a isto, e faziam muito bem. Isto não era para ligar, isto era um país de opereta. De opereta dramática, feroz."
in José Cardoso Pires, documentário produzido e realizado por Rosa Filmes para a RTP em 1998, dirigido por Clara Ferreira Alves
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