Nas palavras do próprio... As Origens
- De que família nasce? - Da parte da minha mãe, média burguesia rural. Da parte do meu pai, se quer que lhe diga, nem sei. Subcampesinato? Talvez nem isso, se calhar... O meu avô paterno apareceu, logo ao nascer, num curral de bois numa pequena aldeia lá para o Norte. Aldeia do Peso, hoje São João do Peso, distrito de Castelo Branco. Naturalmente que vir ao mundo num estabulozinho sem ser por milagre mariano é uma maldição que fica para o resto da vida. Não dá direito sequer a ter um nome que se veja, tanto assim que o meu avô entre palhinhas ficou logo ali a chamar-se José dos Bois para condizer com o cenário da natividade. Mais tarde é que apareceu um Domingos Qualquer, de boa alma, que fez o favor de lhe ceder o apelido e ficou José Domingos. Não me parece que tenha ganho muito com isso, o meu avô, porque, segundo apurei, toda a vida dele foi uma verdadeira saga de fomes e maus tratos. Miséria extrema, daquela que só é possível imaginar nos povoados esquecidos do mapa, sabe como é? À falta de melhor, o meu avô repartiu o nome dos filhos por padrinhos que os pudessem proteger, como aconteceu com o meu pai que, além do nome próprio, recebeu, inclusivamente, o apelido de um tal doutor Neves, médico da comarca e acho que proprietário considerado. Também não deve ter dado um resultado por aí além, essa coisa dos nomes. Com excepção do meu pai, todos os filhos do meu avô tiveram de emigrar para os Estados Unidos depois de terem servido de mão-de-obra infantil nas ceifas do Alentejo. Foram pastores, foram marçanos, foram tudo, até conseguirem juntar dinheiro para a viagem. Há uma fotografia deles em Fall River que é um documento admirável...(...) Uma foto admirável. Os meus tios aparecem todos de chapéu, flor na lapela e charuto na mão, numa irmandade mafiosa. Aquilo não é uma fotografia, é um atestado de triunfo para informação da velha pátria! |
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- Para quando um livro feito sobre essa sua memória familiar?
- Provavelmente para nunca. Os Meus Tios Americanos sempre figuraram na minha memória de uma maneira demasiado colorida e isso retrai-me... Pessoalmente só conheci dois deles, os que voltaram para cá depois de vinte e não sei quantos anos de emigração falhada. E eram personagens fabulosas, nem imagina! Autênticas figuras do Tortilla Flat do Steinbeck, sem tirar nem pôr! Os outros, os que ficaram pela América, nunca os vi. Sei que fizeram carreira como comerciantes de bar em Massachusett's e que morreram de cirrose. Com isto não quero dizer que não os venha a abordar algum dia nos acasos de uma narrativa. Não de maneira directa, evidentemente. A partir de certa altura, a memória vivida faz parte do nosso inconsciente cultural e, como registo do inconsciente, ocorre a cada passo na efabulação literária, mesmo que nos julguemos alheados dela. Ocorre mas logo transfigurada porque quem escreve os livros não é o escritor mas o outro que está escondido dentro dele."
Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 15 - 16
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