O Render dos Heróis

1.ª edição - Editorial Gleba, Lisboa, 1960
Edição especial, com ilustrações de Júlio Pomar - Edições Artísticas Fólio, Lisboa, 1960

"Em O Render dos Heróis, mais para além dos factos, de um aquilo que acontece, é de notar a maneira como Cardoso pires procede ao enfocamento das personagens e como lhes ilumina o mundo dos valores. De notar, sobretudo, como nos «restitui» o sentido da marcha da História pela fala dos comparsas. E, mais uma vez aqui, as figuras ficam como «exemplo», e a narrativa dramática ascende a um plano de exemplaridade que ultrapassa a limitação imposta pelas coordenadas do tempo e do lugar, do quando e do onde. A Apoteose Grotesca tem na sua totalidade uma rigorosa significação simbólica que dir-se- -ia constituir a efígie já secular de uma conjuntura. O Cego está acocorado a um canto; a seus pés a viola; na mão uma lata para receber esmolas. Quem lhas dá? O almirante inglês e o general espanhol chamados para dominar as fileiras populares. Dão as esmolas, mas, ao fechar da cena, retiram-lhas. A «paz» que estas personagens preparam não será, afinal, da mesma que a «paz» sob o signo de Gallagher em O Hóspede de Job»?

O inactual de O Render dos Heróis e da Cartilha do Marialva vive da actualidade que testemunham, e daí a sua função de exemplo. Situar o passado fora dos mitos é um progresso necessário para definir, também fora dos mitos, o presente."

PIRES, José Cardoso, O Anjo Ancorado, 3.ª edição, com um estudo sobre o autor de Alexandre Pinheiro Torres, Lisboa, Moraes Editores, 1964, 218 p., pp. 209-210

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