A República dos Corvos
1.ª Edição - Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1988, 219 p.
"(...) O corvo é bicho de coragem, dizem os livros, e este, embora de asas cortadas por sacanice do tasceiro com quem vive, defende a sua liberdade por ser muito avisado e saltador. Em menos de nada atravessa uma rua, em menos de nada já está de poleiro, a olhar; tão depressa corre como salta, e neste momento aponta aos barracões da beira-Tejo que ao cair da tarde estão necessariamente sem ninguém. Sossego, é do que ele mais precisa e para isso vai no bom caminho. Comércio quase todo fechado, gente a caminho de casa sem tempo para se intrometer com quem passa, autocarros a cumprirem horários, a maré baixa da cidade, uma cidade a escoar-se para os dormitórios. Ouve-se a roncar algures no rio.
Nisto, o Corvo salta para um pequeno relvado aos pés dum monumento, e no relvado descobre, o quê?, uma moeda. Prata a luzir, o que ele gosta disso. Rapidamente, deita-lhe o bico e procura um sítio para a enterrar. Um corvo, como qualquer cidadão, tem todo o direito a brincar com o dinheiro, não é assim?"
PIRES, José Cardoso, A República dos Corvos, 1.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1988, 219 p., pp. 22-23
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