O que Cardoso Pires pensa de... Teatro

"- O teatro tentou-o. Com resultados aparentemente desiguais. Penso no Render dos Heróis e no Corpo-Delito na Sala de Espelhos. Há qualquer contencioso na sua relação com o teatro?

 - Se há! E de que maneira! Antes de mais nada, eu entendo que à liberdade com que escrevo deve corresponder a liberdade de quem me lê, e o teatro é uma leitura. Uma leitura livre e necessariamente criadora, mas uma leitura. Exacto, uma leitura. Por pensar assim é que eu entreguei o texto do Render dos Heróis * ao Fernando Gusmão em total independência e confiança. Nenhum acompanhamento, nenhuma assistência à encenação ou aos ensaios e, como sabe, a peça foi um êxito. Mas por ter seguido, anos depois, o mesmo princípio e confiado outra vez na garantia absoluta de Fernando Gusmão, é que o Corpo-Delito na Sala de Espelhos resultou no fracasso que resultou. Sim, não vale a pena estar com evasivas, aquilo foi um fracasso. Menor do que muitos outros, não interessa, mas um fracasso!

- Porquê fracasso?

 - Repare, a peça tinha sido publicado sob a forma de reader's edition e uma readers edition não é, nunca foi nem podia ser, um guião teatral! Havia que despojar o texto de muita coisa e principalmente havia que o ajustar a um tempo de palco. Nesse sentido, concordância pronta de Gusmão e eu, naturalmente, dispus-me desde logo a reescrever o original. Mais: sugeri que eu, ele, os dois actores principais e um psicólogo (neste caso, Maria Belo) nos fechássemos durante cinco ou seis dias em comunidade rigorosa num local que eu já tinha escolhido para o efeito. Nenhum contacto com o exterior, conversas obrigatoriamente circunscritas à peça e ao seu tema - em resumo, um conjunto de regras de clausura que provocasse a partir de certo tempo uma saturação conflituosa paralela ao clima de tensão concentracionária que o texto descrevia. Com essa experiência, o meu objectivo era colher dados e sugestões para elaborar um guião funcionalmente teatral e, ao mesmo tempo, aprofundar a criatividade dos autores na encarnação dos personagens. Desgraçadamente, tudo ficou em projecto devido a alguns impedimentos que considero perfeitamente superáveis. Além disso, eu vivia em Londres nessa altura e, como se compreende, a ideia foi perdendo força... Tinha, no entanto, a tranquilizar-me o talento e a seriedade de Gusmão que considero um dos nossos maiores encanadores, e Gusmão garantia-me que a experiência da comunidade em huis clos podia ser absolutamente compensada com várias sugestões de correcção do texto que ele me enviaria para Londres. Pronto, se assim era, muito bem, a minha inexperiência teatral não me impunha outra coisa senão aceitar e ficar à espera. Mas, qual quê!, em vez de propostas de correcção o que me chegava a Londres era a insistência em se manter o texto inicial. Tudo igual, tudo como dantes. A própria extensão da peça, que a princípio achávamos incomparável, era agora considerada vantajosa por Gusmão para transmitir o pesadelo obsessivo que se pretendia.

(...)

E o que é mais desgostante é que me sinto incapaz de me corrigir nas minhas relações com o teatro. Não presto assistência à encenação, não contacto com os actores, assisto apenas ao ensaio geral. Distancio-me. Distancio-me sempre, porque tenho uma retracção instintiva perante o mundo interior do teatro. Verdade. De certo modo, o teatro organiza-se em rituais que me são estranhos. Assenta na máscara, cada actor dentro do território teatral é uma máscara e, até mesmo por trás do palco, não gosta de se mostrar sem ela. Daí o mundo fechado que é a comunidade do teatro."

* Levado à cena pelo Teatro Moderno de Lisboa 

Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 63-64 / 67

[ CITI ]