Cartas de Inglaterra

A 24 de Julho de 1880 a Gazeta de Notícias anuncia aos leitores a colaboração de Eça através de correspondência, que viria a ser coligida neste volume denominado As Cartas de Inglaterra. A colaboração com este jornal mantém-se durante dezasseis anos, sendo a primeira carta publicada na mesma data em que foi anunciada a colaboração.

Estas possuem uma feição mais ensaísta e menos noticiosa, ancorando-se num facto único ou aspecto da realidade. Podem focar diversos aspectos da vida inglesa ou terem um cunho mais nitidamente político, como as que fazem uma crítica severa ao imperialismo.

As fontes que Eça utiliza nesta colaboração com este jornal do Rio de Janeiro são, principalmente, os jornais: Times, Standard, jornais com um pendor mais conservador, e o Spectator, um pouco mais "liberal". A utilização destes jornais é feita em duas direcções:

um percurso que parte do facto ou da notícia apreendida na fonte inglesa, depois seguindo um processo de consideração crítica. Utilização mais usual no artigo político, contendo as unidades informativa, reactiva e deliberativa em que Eça exerce uma actividade de decifração das informações e opiniões. Há o que se pode denominar de "jogo meta-narrativo" em a relação entre o narrador e a fonte de informação é estreita. As informações são detectadas e referenciadas à realidade. Depois, opõe-nas, compara-as, aproxima-as, expressando a sua tendência e o seu texto através da sua interpretação, selecção e avaliação.

Utilização como mero ponto de partida, espraiando-se depois em relatos em que se podem fazer depois presentes algumas feições típicas da narrativa de ficção. Aqui denota-se a presença da sua actividade enquanto escritor, pela delineação de certos tipos humanos e pela criação imaginativa da cena.

Continua a verificar-se uma abordagem crítica em relação ao posicionamento dos jornais que lhe servem de fonte para a elaboração da correspondência.

A ironia mais uma vez se manifesta em face da corrupção dos costumes em Inglaterra, expresso pela proliferação do vício da bebida, pela imoralidade, pelas infidelidades conjugais, pelos hábitos de vida da alta sociedade, por toda a miséria de uma classe social inferior que compara às classes média e alta que valorizam um estrito formalismo ético com normas que visam regular todos os aspectos da sua conduta. Há contradição, que Eça ironiza, entre o moralismo e os aspectos concretos da vida inglesa. A religião é também focada, com suas implicações sociais e de culto, sendo que uma menor frequência dos locais de culto implica um crescimento do sentimento religioso liberto das formas perecíveis das religiões.

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