A Cidade e as Serras - Estética

O narrador deste romance é Zé Fernandes, um personagem secundário, amigo de Jacinto. Isso, porém, não o impede de se distanciar ideológica e culturalmente deste. Os eventos narrados já se passaram, por isso o romance depende tanto da sua memória com da sua visão dos personagens e eventos narrados - narração de tipo retrospectivo.

Zé Fernandes tem um estilo muito próprio, de acordo com a sua proveniência de um universo de montanhas, de terras.

É uma personagem com grandes influências no evoluir da acção e nas mutações em Jacinto.

A descrição ocupa nesta obra um papel muito importante. É mais do que um elemento meramente decorativo. Tem, muitas vezes, uma função simbólica e às vezes até conotações ideológicas.

As descrições de Paris e de Tormes são extremamente pormenorizadas. O narrador pretende acentuar a diferença existente entre elas. Paris é o símbolo de uma existência colonizada pelos excessos da técnica. Zé Fernandes descreve-a como um espaço ameaçador e povoado de objectos bizarros: "toda uma Mecânica sumptuosa, aparelhos, lâminas, rodas, tubos, engrenagens, hastes, friezas, rigidezas de metais ..." - o assíndeto acentua esta acumulação que parece não ter fim.

Quando se descreve Tormes, o perfil das descrições altera-se. É um cenário tranquilo e doce, que prenuncia a mudança de Jacinto. Os termos afectivos (utilização dos diminutivos) utilizados pelo narrador, mostram que o universo de valores a que o narrador pertence vai projectar-se sobre Jacinto. Daí que a descrição da subida da serra (cap. VIII) corresponda ao começo de uma nova etapa na vida de Jacinto, enquadrada num espaço dela indissociável.

[ CITI ]