Contos - José Matias
Este conto apresenta-nos uma insólita intriga amorosa, argumento que serve de pretexto para a crítica ao ultra-romantismo exacerbado e para a exaltação da estética realista.
Esta história é contada pelo narrador que, ao estabelecer diálogo com um amigo seu acerca do funeral de José Matias (amigo comum), aproveita a oportunidade para contar a história amorosa do falecido. Todo o relato é feito essencialmente por meio da cena dialogada.
O amigo do narrador conhecia José Matias dos tempos de Coimbra e, assim, a analepse em que se conta a história deste remonta a Coimbra de 1865. Há, portanto, uma clara intenção crítica face aos eventos socio-literários da época.
A história amorosa narrada fala-nos de um amor somente contemplativo, espiritual, platónico, idealizado e cortês, que José Matias cultiva por uma mulher Elisa.
Esse amor era correspondido, mas socialmente impossível porque Elisa era casada. Mas, à morte do seu marido, ela suplica a José Matias que case com ela. Como este recusa, consumido por uma dúvida existencial, Elisa volta a casar. A partir daí, o protagonista afoga-se na bebida e gasta tudo o que tem. Entretanto, o segundo marido da sua amada morre, e esta regressa a Lisboa, tendo um amante. José Matias morre, de congestão pulmonar, quando segue este último, por recear que este não era fiel a Elisa.
Elisa é caracterizada como uma mulher sensual e carnal. Já José Matias é representado como um homem invulgar, um ultra-romântico dotado de hiperespiritualismo doentio.
Ao contar a história, o narrador critica esse amor totalmente desajustado que o seu amigo defendia. Temos aqui, claramente evidenciada, a oposição realismo/romantismo.
Concluímos, no final, que o enterro de José Matias simboliza o declínio de uma estética desajustada e ridícula, relativamente aos valores da nova sociedade, e o florescer de uma nova corrente que pretere os valores em que José Matias acreditava.
Depreende-se, portanto, deste conto uma crítica ao desfasamento entre o que a sociedade oferece e o que a literatura pratica. Sendo a sociedade materialista, não se compreende que a literatura continue a ser idealista e lírica. A literatura, que deveria ser a pioneira na acusação dessa sociedade materialista, alheia-se dela e vive numa realidade fictícia.
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