Contos - No Moinho

Este conto problematiza a influência nefasta que o romantismo exacerbado tem no comportamento de uma personagem feminina alheada da realidade social.

A leitura de romances e poesias ultra-românticas transformam uma senhora bela e séria numa amante que "escandalizou toda a vila". Essa mulher é Dona Maria da Piedade - "uma loura, de perfil fino, a pele ebúrnea e os olhos escuros de um tom violeta, a que as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e doce".

Por meio de um processo de analepse, é relatado o difícil itinerário de vida desta mulher. Maria da Piedade vê-se forçada a sair muito cedo de casa de seus pais pois o pai, viciado no jogo e na bebida, maltratava frequentemente a esposa e os gritos da mãe horrorizavam-na, obrigando-a a retirar-se para um quarto onde chegava a chover. Este terrível ambiente familiar fá-la precipitar-se num casamento com um entrevado. E será este casamento sem amor a razão da transformação desta mulher-anjo, pura, mãe dedicada e dona de casa extremosa, numa mulher devassa, que se desresponsabiliza dos afazeres domésticos e trai o marido – torna-se, portanto, uma mulher-diabo.

Esta transformação é atribuída à leitura de romances. São eles os responsáveis pela degradação total que a personagem atinge com a exaltação mórbida de sentimentos.

Adrião, primo do seu marido, é o homem com quem Maria da Piedade vai consumar a traição mas é também o primeiro homem que ela ama.

O idílio amoroso tem lugar num moinho, o que justifica o título. Mas Adrião rapidamente parte e Maria da Piedade, agora despertada para o amor, procura na literatura romântica uma compensação. São, de facto, essas leituras as responsáveis pelo apogeu que atingiu o seu nível de degradação. Inicialmente, eram apenas um escape substitutivo da ausência de Adrião, depois passam a funcionar como um momento de evasão e, posteriormente, a protagonista começou a sentir necessidade de cultivar a imaginação como forma de se sentir ocupada. É a oposição mundo ideal/mundo real, um que Maria da Piedade encontra nos romances que lê, outro em que vive todos os dias, que a leva à revolta, ao histerismo e à tentativa de superação destas crises através do amor carnal.

Pretende-se, portanto, com este conto, realizar-se uma crítica severa à literatura romântica. O autor quer claramente mostrar-nos como o Homem é fruto da hereditariedade e do mundo envolvente e facilmente influenciado pelas leituras.

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