A Correspondência de Fradique Mendes - Carlos Fradique Mendes
Em carta a Oliveira Martins (10/06/1888): "O que eu pensei foi o seguinte: uma série de cartas sobre toda a sorte de assuntos, desde a imortalidade da alma até ao preço do carvão, escritas por um certo grande homem, que viveu aqui à tempos, depois do Cerco de Tróia e antes do de Paris, e que se chamava Fradique Mendes! Não te lembras dele? Pergunta ao Antero. Ele conheceu-o, homem distinto, poeta, viajante, filósofo nas horas vagas, diletante e voluptuoso, este gentleman, nosso amigo, morreu. E eu, que o apreciei e tratei em vida e que pude julgar da pitoresca originalidade daquele espírito, tive a ideia de recolher a sua correspondência (...) e publico-a ou desejo publicá-la na Província.".
Fradique é um verdadeiro heterónimo de Eça, sendo óbvias as semelhanças ideológicas com o seu criador, é "um documento de própria trajectória existencial e psicológica de Eça".
Carlos Fradique Mendes era um grande homem, uma idealização de um conceito de humanidade cosmopolita, ainda que de raiz provinciana.
Nasceu na Ilha Terceira, possivelmente por volta de 1867, tendo à data das cartas 33 anos.
Por morte prematura dos pais, Fradique foi educado pela avô - D. Angelina Fradique, com a presença constante de um frade beneditino, de um coronel francês e um alemão que lhe fala de Kant. Aos 16 anos entra para a Universidade, sendo colega (virtual) de Antero e Eça.
Em 1867 é já um homem viajado e experiente, um modelo para os demais intelectuais da Geração de 70. Fradique tem preocupações de ordem social e política.
Carácter enigmático e um pouco controverso, interessado e observador. "Romântico pela primeira educação, orientalista, trotamundos, "touriste" da inteligência, «homem que passa, infinitamente curioso e atento», «superiormente apetrechado para triunfar na Arte e na Vida», ele constitui um juiz do mundo e da sociedade portuguesa".
Um revolucionário, educado, robusto, culto, de bom gosto, mas também um desiludido, um pessimista.
Em rigor, Fradique Mendes pode ser considerado 3 personagens: a primeira é um heterónimo colectivo criado entre 1868 e 1869, por Jaime Batalha Reis, Antero de Quental e Eça, no tempo do Cenáculo de Lisboa. A segunda, surge episodicamente n' O Mistério da Estrada de Sintra em 1870, e finalmente a que Eça retoma individualmente com a publicação de Correspondência de Fradique Mendes, em 1888-1900.
Eça: "Este novo Fradique que eu relevo é diferente - verdadeiro grande homem, pensador original. Temperamento indicado às acções fortes, alma requintada e sensível".
Aristocrata rico, descendente de antigos navegadores, de uma "velha e rica família dos Açores". Estudara em Coimbra e em Paris.
Acompanhou Garibaldi na conquista da duas Sicílias. Com 34 anos, fez parte do Estado-Maior de Napier, na campanha de Abissínia.
Era "o português mais interessante do século XIX", com "curiosas parecências com Descartes". Mas faltava-lhe um objectivo definido na vida.
Lia Sófocles, conhecedor de muitas línguas, entre as quais francês, alemão, inglês e até um pouco de árabe.
"Expressão de uma incontida admiração pela figura do gentleman, personificação simbólica de uma elite intelectual que se opunha à vulgaridade e à chateza de um país em declínio, Eça, através de Fradique, tornou evidente também essa oposição pela sátira e pela critica: às liturgias que atravancavam e contrariavam o puro espírito com que as religiões se deveriam exprimir, à vacuidade de certos políticos do parlamento (carta ao Sr. Mollinet, onde retracta Pacheco), a um certo tipo de capitalistas (carta a Mme de Jouarre, onde retracta o Comendador Pinho) e ainda à classe eclesiástica portuguesa, inteiramente vinculada e dependente do estado, personificada genericamente no "horrendo" Padre Salgueiro - carta a Mme de Jouarre.
Através de Fradique, Eça exprimiu também um amargo cepticismo perante angústias sociais para as quais não encontrou remédio.
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