O Crime do Padre Amaro - Análise Literária

Nesta obra, Eça apresenta-nos o mundo beato de uma pequena cidade, os bastidores das antecâmaras ministeriais, por onde corriam as nomeações de eclesiásticos, o ambiente romântico (representado por Artur Couceiro, a música do Adeus, os serões na praia da Vieira e Carlos Alcofrado – o famoso antepassado de Alencar).

Evoca ainda a vida provinciana, com os seus mexericos e centros de coscuvilhice, a casa de pasto, onde se encontram os revolucionários falhados, o ambiente da intriga política, com o seu infalível oportunismo, e até um representante das ideias do século – o Dr. Gouveia – em quem a crítica havia de reconhecer a obediência de Eça aos princípios da escola.

Assim, a pequena intriga de Leiria, iniciada na casa de hóspedes da S. Joaneira, alarga-se a toda a cidade, convertendo este romance, não na simples história de um padre sensual e perverso, mas na pintura crítica dos costumes de uma pequena cidade de província, pacata e adormecida, donde sobressai a influência de uma religião deturpada e o ridículo de um beatismo ignorante e inconsciente.

De facto, o clero é muito criticado nesta obra, tanto na figura de Amaro, sacerdote sem vocação para o seu cargo (pois fora obrigado a seguir o sacerdócio), como na figura do cónego Dias, pela sua relação com a S. Joaneira, e também na personagem do Padre Natário, pessoa vingativa, sem caridade.

Nota-se que um certo socialismo irreligioso e anticlerical influenciara o autor na escrita deste romance. Contudo este é, sem dúvida, um documento autêntico da baixeza que o clero atingira em algumas regiões.

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