O Crime do Padre Amaro - Crítica
Comecemos pela opinião de Machado de Assis acerca desta obra:
"O Crime do Padre Amaro revelou desde logo as tendências literárias do Sr. Eça de Queirós e a escola a que abertamente se filiava. O Sr. Eça de Queirós é um fiel e esperrímo discípulo do realismo (...) e eu que não lhe nego a minha admiração, temo a peito dizer-lhe francamente o que penso, já da obra em si, já das doutrinas e práticas cujo indicador é na prática de Alexandre Herculano e no idioma de Gonçalves Dias. (...) O próprio Crime do Padre Amaro é imitação do romance de Zola, La faute de labbé Mouret. Situação análoga, iguais tendências, diferença do meio, diferença do desenlace, idêntico estilo, algumas reminiscências, como o capítulo da missa e outras. Enfim, o mesmo título. Quem os leu a ambos não contestou de certo a originalidade do Sr. Eça de Queirós, porque ele a tinha, e tem e a manifesta de modo afirmativo. Creio até que essa mesma originalidade deu origem ao maior defeito de O Crime do Padre Amaro . O Sr. Eça de Queirós alterou naturalmente as circunstâncias que rodeavam o padre Mouret, administrador espiritual de uma paróquia rústica, flanqueado de um padre austero e ríspido; o padre Amaro vive numa cidade da província, no meio de mulheres, ao lado de outros que do sacerdócio só têm a batina e as propinas; vê-os concupiscientes e maritalmente estabelecidos, sem perderem um só atomo de influência e consideração. Sendo assim, não se compreende o terror do padre Amaro, no dia em que do seu êrro lhe nasce um filho, e muito se compreende que o mate. (...) Ora bem compreende-se a ruidosa aceitação de O Crime do Padre Amaro. Era realismo implacável, consequente, lógico, levado à puerilidade (...). Víamos aparecer na nossa língua um realista sem rebuça, sem atenuações, sem melindres, resoluto a vibrar com o martelo no mármore da outra escola, que aos olhos do Sr. Eça de Queirós parecia uma simples ruína (...). Não se conhecia no nosso idioma aquela reprodução fotográfica e servil das cousas mínimas e ignóbeis. Pela primeira vez aparecia um livro em que o escuso (...) e o homem em quem o escuso é torpe eram tratados com um carinho minucioso e relacionados com uma exacção de inventário. A gente de gôsto leu com prazer alguns quadros, excelentemente acabados, em que o Sr. Eça de Queirós esquecia por minutos as preocupações da escola; e ainda nos quadros que lhe destoavam, achou mais de um rasgo feliz, mais de uma expressão verdadeira; a maioria, porém, atirou-se ao inventário. Pois que havia de fazer a maioria senão admirar a fidelidade de um autor que não esquece nada e não oculta nada? (...) Quanto à acção em si, e os episódios que a esmaltam, foram um dos atractivos de O Crime do Padre Amaro, e o maior dêles; (...) e tudo isto saindo das mãos de um homem de talento, produziu o sucesso da obra".
Camilo, em carta ao Visconde de Ouguela em 1876, falava sobre a obra:
"Já leste O Crime do Padre Amaro de Eça de Queirós? Li alguns capítulos na "Revista Ocidental" e achei excelente. Vi anunciado agora o romance em livro. Esse rapaz vem tomar a vanguarda a todos os romancistas. É um admirável observador; e conquanto faça pouco caso das imunidades da língua, tem arte de fazer admiráveis defeitos".
Noutra carta dirigida ao mesmo destinatário dizia:
"Estou lendo o romance que é bastante diverso do que eu lera na "Revista Ocidental". Tem admirável paciência da observação plástica; mas dentro dos tecidos musculares, figura-se-me que Vê mal. Quanto à linguagem, às impropriedades, reflexo de Flaubert, não as estranho nem as abomino; o que me escandaliza são os velhos erros da gramática e os barbarismos, que não usam os satânicos franceses na sua língua. Êste livro seria quasi perfeito, se Eça conhecesse a língua (...) de Luis de Sousa".
Ramalho Ortigão emite o seu parecer:
"O livro do Sr. Eça de Queirós oferece-nos o primeiro exemplo de uma obra de arte sugerida pela consideração de um problema. E todavia O Crime do Padre Amaro não é de nenhum modo um livro de crítica, é um livro de pura arte, na mais alta acepção da palavra. (...) O drama principia, desdobra-se e termina de um fôlego, caminhando para o seu desfecho, recto, implacável, como um traço riscado pela fatalidade, através daquela estreita vida de província, com a sua intriga local, as suas personagens mesquinhas, os seus padres, as suas beatas, os seus aspectos sujos, tortuosos, compungidos, pretensiosos, miseráveis. Dêste fundo sombrio, espêsso, pesado como o tédio, a acção destaca-se luminosamente e penetra-nos com a nitidez poderosa dos espectáculos vivos. É a vida mesmo com toda a sua trivialidade real que perpassa aos nossos olhos. (...) Constituem páginas de uma concepção e de uma tonalidade trágica, profundamente elegíaca e solene, que fica vibrando por muito tempo na memória como o eco fúnebre (...)".
Eis o parecer de Alexandre da Conceição:
"O Crime do Padre Amaro é um trabalho de compreensão e execução artística que Flaubert ou Zola se orgulhariam de assinar. (...) Tornou-se com as ampliações e desenvolvimentos desta última edição uma arte séria e profunda como um verdadeiro estudo sociológico".
Segundo Sampaio Bruno:
"(...) só quando em 1874 (isto é: em 1875) apareceu o Crime do Padre Amaro, anunciado desde 1872, é que enfim os olhos do grande público de vez se fixaram, redondos, abertos, no eminente artista. (...) Tinham-o conseguido completamente, porque poucos romances haverá mais poderosos do que estes seus. E contudo as peripécias são de vulgaridade burguesa e previstas desde as primeiras páginas. O seu poder está no movimento interno e subjectivo dos personagens, na realidade imediata, na lógica dos pequenos acidentes que nos escapam a toda a hora, no colorido vivo das descrições, nas frases surpreendidas à natureza, na audácia com que aborda os grandes lances com uma verdade shakespeariana. Enfim, nas minúcias e no conjunto da acção, não se acha uma malha onde o seu tecido se possa desfazer por inverosímil. Quem pode isto é um mestre, é um laboratório vivo de experimentação social; o modo como nos impõe as tremendas colisões da realidade, como os seus personagens, às vezes desprezíveis ou nulos, se levantam e nos forçam a discuti-los como produtos fatais de uma sociedade ou de uma classe, mais o obrigam a dar a este poder uma disciplina, a pô-lo ao serviço da evolução humana, atacando com ele o que é perecível e fortificando o que nunca será eliminado".
Vejamos, por fim, a opinião de Fialho de Almeida:
"A nova edição refundida é perfeita e completa, no romance psicológico como no romance físico; o detalhe de exuberância e subtileza notáveis; o diálogo preciso, curto e cheio de movimento, ressalta da verdade crua, levemente facetada de sarcasmos e de colorido extraordinário, à maneira dos flamengos; todo o jogo destaca bruscamente os seus desenhos, que pousam negros em fundos claros, e claros em fundos negros. A vida da cidade de província vive tão minuciosa, como se vista a microscópio, e as figuras passam, conversam, intrigam, oram ou pecam como nós temos visto viver, morrer, passar, conversar e pecar um mundo que passou por nós, nalgum período forasteiro da nossa existência. (...) O Crime do Padre Amaro é uma obra-prima, igual às melhores que a admiração universal tem consagrado, porque ninguém como Eça de Queirós compreendeu melhor, com a sua prodigiosa sagacidade de artista, como o romance moderno aspira a ser a fotografia da sociedade, surpreendida no seu labutar incessante ou na sua atonia de decadência manifestação de arte das mais complicadas e explêndidas".
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