Eça de Queirós em França

Numa carta a Oliveira Martins, em 1894, faz um balanço da sua vida desde que vive em França, cidade que acaba por se revelar sem novidades:

"Nós continuamos na remota província de Neuilly. A nossa casa agora é metida dentro de um jardim, que é ele mesmo metido dentro de um terreno, que por seu turno está metido dentro dum largo prédio de rapport. Tens decerto visto disposições iguais em caixinhas chinesas. Aí passamos uma vida provinciana e rotineira, como se vivêssemos em Carcassone ou Carpentras. Os nossos amigos interessantes estão dispersos e só vemos alguns conhecidos desinteressantes. Quem aparece bastante é Moniz Barreto, que está, no corpo e alma, um verdadeiro personagem de Hofmann. De resto, graças a Deus, a tribo está boa. Os pequenos ambos se lembram e falam de l’oncle philosophe, e, enquanto estiveste doente, nunca deixaram, por lembrança própria, de rezar e pedir ao petit Jesus que mandasse a saúde à ce bom oncle philosophe... Eu é que não tenho andado bem de saúde. No Inverno tive influenza, ou uma série de pequenas influenzas. Fiquei fraco. Na minha qualidade de abdominal, essa fraqueza localizou-se sobretudo nos intestinos, que se tornaram anárquicos. Além disso o sistema nervoso está desnutrido e acanaviado. É esta, a meu respeito, a notícia mais importante. De resto, faço uma vida, não direi de cenobita, porque esses, pela imaginação, viveram uma vida delirante e grandiosa, mas de petit bourgeois retiré. Faço também literatura, uma literatura complicada, porque, com o vício de misturar trabalho, acho-me envolvido na composição, revisão e acepilhação geral de cinco livros."

Carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins, datada de 1894 in SIMÕES, João Gaspar, Eça de Queirós, Lisboa, Ed. Arcádia, 1961, s/ed., pp. 120-121.

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