Jornalismo

Eça de Queirós deixou páginas admiráveis de jornalismo ou sobre jornalismo dispersas por diversas e inúmeras publicações, cujo inventário é bastante longo. As páginas de jornalismo de Eça revelam um grande conhecimento dos segredos da informação escrita. Não existe, pelo menos para ele, incompatibilidade de géneros ou prioridade de uma das actividades, o jornalismo, em relação à outra, a literatura. A bibliografia de Eça revela que muitos dos títulos ou a sua maioria correspondem a colectâneas de textos publicados e que eram destinados originariamente a jornais ou revistas, mesmo sob a forma de folhetins. São escritos que resistem ao tempo e à precariedade do meio em que foram divulgados, embora na passagem a livro o escritor possa melhorar a sua obra.

Para um escritor a experiência jornalística é o "laboratório de um estilo"*

As qualidades jornalísticas de Eça podem considerar-se superiores, decorrendo do seu desassombro cívico, do inovador domínio que exerce sobre a língua portuguesa e ainda de uma viva e actualizada cultura, especialmente no que respeita à literatura.

As razões que levaram Eça a exercer esta actividade foram a necessidade de obviar à insuficiência dos seus honorários na actividade consular, agravado aquando do seu casamento e respectiva constituição de família e ainda o sonho de criar uma revista, sonho que o acompanhou desde a juventude até quase à sua morte.

No entanto a posição de Eça quanto ao jornalismo é de distanciamento crítico, uma abordagem irónica quando era caso disso, atitude que é constante perante outras manifestações humanas.

A actividade jornalística de Eça possui duas vertentes. Por um lado, visa uma crítica política, visível em quase todas as experiências de Eça nesta área e, por outro, a crónica dos nossos dias, mais patente na correspondência que mantinha do estrangeiro com diferentes publicações.

A colaboração de Eça de Queirós nos jornais pode assumir formas divergentes, nomeadamente por meio de artigos, crónicas resultantes da correspondência do estrangeiro, mas também folhetins, partes da produção de ficção de Eça primeiro publicada em jornais, como acontece com O Crime do Padre Amaro (1875), com A Relíquia (1887) e com A Correspondência de Fradique Mendes (1888).

No século XIX o folhetim era para o escritor um meio de expressão qualificado e mais facilmente acessível que o livro, cuja chegada ao leitor é mais complicada. Este neologismo oitocentista designava uma categoria jornalística com origem em França, durante o Consulado, chegando até nós pela apropriação do castelhano folletín. Constitui um género jornalístico literário ou magazinesco que se encontra no rodapé da página nobre, geralmente a primeira, podendo prosseguir nas páginas interiores, sendo separado da parte noticiosa por um filete bem distintivo.

A estreia literária de Eça no que respeita à actividade jornalística acontece no dia 23 de Março de 1866 na Gazeta de Portugal. Continua a colaborar com a Gazeta com alguns artigos após a experiência em Évora, com uma enorme variedade temática.

Após esta estreia, a actividade jornalística de Eça passa pela direcção e redacção de um jornal bissemanário, O Distrito de Évora, pela colaboração, através de correspondência do estrangeiro, depois recolhida em colectâneas como As Crónicas de Londres e As Cartas de Inglaterra, no que respeita a escritos sobre Inglaterra; Ecos de Paris, publicado em 1905 e contendo crónicas sobre o anarquismo, e Cartas Familiares e Bilhetes de Paris, publicado em 1907, no que respeita à sua estada em Paris e que resultam da colaboração com a Gazeta de Notícias, jornal do Rio de Janeiro, de Janeiro de 1892 até Novembro de 1897.

No que respeita à correspondência de Inglaterra, Eça oferece uma interpretação do mundo inglês num tipo de jornalismo opinativo que exibe explicitamente marcas de avaliação e julgamento. Baseado no seu conhecimento real e prático Eça foca diversos assuntos mas mostra um maior interesse pelas manifestações do imperialismo, pela desigualdade económica e pela apreensão dos traços mais significativos do carácter inglês, em especial a excentricidade e a hipocrisia moral.

Colabora ainda no Revolução de Setembro, de 13 de Abril a 8 de Julho de 1870, começando a recriação da Vida de Jesus e é aqui que publica os primeiros escritos de Fradique Mendes, no "Diário de Notícias" com as crónicas que relatam a sua viagem ao Oriente – de Port Said ao Suez – em Janeiro desse ano e, depois, com o conto Singularidades de Uma Rapariga Loira, em 1874 e com outras crónicas e artigos referidos na biografia.

No exercício desta actividade elabora ainda As Farpas, de Maio de 1871 a Novembro do ano seguinte, em parceria com Ramalho Ortigão, texto acutilante que se destina a uma vasta audiência. Mais tarde, Eça de Queirós reúne a sua colaboração em Uma Campanha Alegre, na qual se suprimiram as crónicas mais provocantes em razão do estado de depressão moral em que se encontrava a sociedade. Escreve ainda com Ramalho Ortigão O Mistério da Estrada de Sintra, no Verão de 1870, publicado no espaço e com uma periodicidade de um folhetim e tendo como fim acordar a tristeza de uma Lisboa que cabeceava de sono.

Os Almanaques Enciclopédicos dos anos de 1896 e 1897 que elaborou, com a colaboração de José Sarmento e Henrique Marques, não são mais que jornais, mas anuais.

A sua colaboração faz-se ainda com outras publicações, como a revista O Atlântico e que são referidas na biografia.

*CASTRO, Aníbal Pinto de in MATOS, A. Campos (org. e coordenação), Dicionário de Eça de Queirós, Lisboa, Ed. Caminho, 1988, s/ed., pág. 208.

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