Presságios

O desfecho trágico de Carlos parece atribuir-se a uma fatalidade cega e impiedosa. Os acontecimentos funestos são, muitas vezes, anunciados por presságios, acontecimentos ou objectos cuja carga negativa deixa adivinhar desgraças. São, por exemplo, observações banais que adquirem, mais tarde, o estatuto de prenúncios.

Assim:

- A fatalidade familiar ligada ao Ramalhete: Vilaça menciona-a no relatório sobre a casa que enviou a Afonso, mas este não desistiu de a habitar;

- A semelhança de nomes entre os irmãos (Carlos Eduardo e Maria Eduarda). Carlos diz mesmo, falando dessa semelhança: "Quem sabe se não pressagiava a concordância dos seus destinos!" - pressagiava, de facto, mas de forma trágica;

- O painel com a cabeça degolada dentro de um prato de cobre que, no quarto, vigiava o ninho de amor em que os dois irmãos consagravam o incesto. Era a cabeça de João Baptista degolado por ter denunciado a relação incestuosa de Heródes. Eduarda impressiona-se com ela na primeira visita aos Olivais e Carlos tapa-a quando se deitam juntos pela primeira vez;

- A trovoada que acompanha a primeira noite de amor dos dois irmãos. Esta acontece num ambiente carregado de presságios como que prevendo um futuro onde tudo seria confuso e escuro;

- A semelhança fisionómica que Maria Eduarda nota entre Carlos e a sua mãe;

- Os três lírios brancos que murchavam, símbolo dos elementos da família que ainda restavam;

- A sorte de Carlos ganhando todas as apostas - nas Corridas de Cavalos, é indício de futura desgraça.

Tudo presságios não entendidos pelo protagonista, como era próprio da tragédia clássica.

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