A Casa da Cabeça de Cavalo

"...Livro que se passa no século XIX, mas que no fundo fala do século XX; não é um romance histórico nem fantástico embora jogue com metáforas que parecem fantásticas: por exemplo, há um cavalo que passa ao longo do livro e só depois se percebe que esse cavalo é o tempo; (...) é uma metáfora para dizer que o tempo passa, derruba tudo e as pessoas não conseguem guardar-se a si próprias nem guardar nada de bens materiais, porque tudo é efémero e passageiro, mas eventualmente alguma coisa passa para as gerações seguintes: (...) as histórias, (...) a ideia de que a literatura serve para guardar o tempo. (...) A literatura faz isso a um nível mais afectivo (...) do que a História, (...) eu recuso a perspectiva histórica; (...) interessam-me as histórias pessoais entrelaçadas com determinados dados históricos, (...) a revolução, as invasões francesas, (...) com que eu joguei numa perspectiva lúdica; (...) este livro também é uma comédia, (...) é um livro irónico "

Numa casa já desabitada, reúnem-se as almas dos seus antigos habitantes para contarem histórias das suas vidas; a personagem Januário é incumbida de registar essas conversas com o intuito de não deixar morrer a memória. Teolinda Gersão conta-nos uma história de histórias, "...com uma escrita (...) desinibida, desenvolta, irónica, maliciosa (...), em suma, como a conversa amena dos seus narradores, completando-se uns aos outros na construção do puzzle que é cada uma das histórias, ao mesmo tempo com a consciência de que não há senão versões dos factos, numa multiplicação infinita de pontos de vista que não autoriza, até pelas deturpações a que a memória está sujeita, pretensões de verdade. " (MARTINHO, Fernando J.B - "Teolinda Gersão, A Casa da Cabeça de Cavalo", in Jornal de Letras, s.l, 14 de Fevereiro de 1996). É uma comédia que fala da morte, da negação desta porque enquanto há memória há vida, "...a morte não é a territorialização final, (...) a morte é o salto definitivo do cavalo. " (COELHO, Eduardo Prado - "Os Degraus da Morte. Teolinda Gersão: A Casa da Cabeça de Cavalo" in Público, s.l, 15 de Junho de 1996, página.12) A conclusão deste livro poderia ser: "(...) se não contamos histórias, nossas e dos outros, perdemos uma parte de nós, empobrecemos " (BARBAS, Helena - "O Gozo de Escrever Histórias", Entrevista com Teolinda Gersão in Elle, s.l, nº89, Fevereiro, 1996, página.71).

"É preciso que a escrita tome o lugar da casa em ruínas, e que (...) fixe, guarde, emoldure (...) tudo, absolutamente tudo, o mais insignificante, precisamente porque insignificante, precisamente porque há um infinito em tudo o que existe apenas porque existe, e esse infinito nenhuma casa o poderá guardar se não for feita de palavras, palavras transparentes, para além do vidro e da água, coladas ao coração das coisas. " (COELHO, Eduardo Prado - "Os Degraus da Morte. Teolinda Gersão: A Casa da Cabeça de Cavalo" in Público, s.l, 15 de Junho de 1996, página.12).

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