Movimento de 30

O movimento de 30 é o sucedâneo do Modernismo brasileiro, diferenciando-se   deste por algumas singularidades literárias, políticas e temáticas. Enquanto o modernismo brasileiro se caracterizou  pelo antropofagismo literário e pelo espírito mítico-poético  de primitivismo em busca da alma nacional, o movimento de 30 buscou apreender o homem brasileiro e os seus problemas  na sociedade, tomando por base as conquistas formais da Semana de Arte Moderna de 1922.

O modernismo desenvolveu-se nos salões literários de São Paulo e do Rio  de Janeiro, e em revistas de pequena circulação, cuja intenção principal era chocar   e escandalizar a aristocracia cafeeira e a nascente burguesia industrial paulista. O movimento de 30 processou-se no meio da rua, entre o povo, com a intenção de tirar daí as fontes para uma criação literária própria.

Na verdade, o movimento de 30 funcionou como uma das correntes resultantes do modernismo, pois também lutava contra o academismo da época, mas a partir da reivindicação de um lugar de destaque para a literatura do Norte e Nordeste. Uma reivindicação expressada no Primeiro Congresso de Regionalistas do Nordeste que resultou no Manifesto Regionalista de 1926, e depois reforçada por Franklin Távora, no prefácio de A Bagaceira, romance de José Américo de Almeida.

Ao contrário do que acontecera com o movimento modernista, que só viria a ser reconhecido alguns anos mais tarde, o movimento de 30 tornou-se logo popular, originando imediatamente um público leitor. Depois de José Américo de Almeida, veio Raquel de Queirós, com O Quinze; José Lins do Rego, com Menino do Engenho; Amando Fontes, com Os Corumbás; Érico Veríssimo, com Clarissa; José Geraldo Vieira, com a A Mulher que fugiu de Sodoma; Lúcio Cardoso, com Maleita; Marques Rebêlo, com Oscarina; Graciliano Ramos, com Caetés, São Bernardo e Vidas Secas.

De todos, Graciliano é o Mestre Graça, como lhe chama ainda hoje Jorge Amado. De facto, Graciliano caracteriza com mestria e perfeição esse movimento, através dos seus romances São Bernardo e Vidas Secas. Mais do que qualquer outro, ele apresenta o espírito humano, nos seus diversos aspectos, em correlação com o seu ambiente imediato, com a linguagem, com a paisagem e com as riquezas culturais de uma região particular.

O homem concreto é retratado com justeza, correcção linguística e perfeição estética em relação a certas peculiaridades que o distinguem e indicam a sua forma de participação no conjunto da humanidade. É geralmente um homem agarrado ao seu solo sem maneirismos ou ideologias de qualquer ordem, à excepção da sobrevivência obtida a qualquer preço e, às vezes, sem qualquer princípio moral.

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