Personagens dos Romances

Apesar de ter sido influenciado pelo modernismo, principalmente pela perspectiva de romper com o academicismo então vigente, Jorge Amado não se ateve à construção de uma identidade mítico-poética do Brasil e preferiu, como Graciliano Ramos e José Lins do Rego, buscar no Nordeste a sua origem de sertanejo e os personagens que caracterizam a sua literatura de vida desde 1931 quando publicou aos 19 anos, "O País do Carnaval".

Foi viajando pelo interior da região Nordeste e sobretudo da Bahia que Jorge Amado criou personagens masculinos que ficaram para sempre na memória e na literatura como Antonio Balduíno, Vadinho, Pedro Arcanjo e Quincas Berro D'água. Personagens saídos do povo e apreendidos pela ficção realista do escritor, através da caricaturagem de tipos folclóricos como o malandro, o espertalhão, o honesto, o imbecil, o preguiçoso, o sedutor, o mulherengo, o jogador, o moralista.

Foi observando as negras e mulatas do terreiro de Menininha do Gantois, em Salvador; as prostitutas do Largo do Pelourinho; as lavadeiras das calçadas do Senhor do Bonfim ou as jovens burguesas descendentes directas do coronéis do cacau da região de Santo Amaro, Ilhéus e Itabuna que Jorge Amado criou uma galeria de tipos femininos inesquecíveis que mistura força, coragem, sensualidade, sabedoria, beleza e poder.

Gabriela (Cravo e Canela), Tieta (a do Agreste), Dona Flor (e os seus dois maridos), Teresa Batista (cansada de guerra), Adalgisa (quadris afro) e Manela (a de Yansã). Mulheres fogosas, queimadas de sol, ancas cheias, sorriso farto, lábios sensuais. Em cada uma delas, o escritor expressa uma faceta da mulher nordestina e uma moral diferente, conforme a própria vida lhe ensina: o sofrimento da sobrevivência, a dupla jornada de trabalho, o desrespeito dos homens, o cuidado estremado com os filhos, a vontade de viver e de amar, a leveza e a liberdade com que se entregam ao prazer da carne.

Uma galeria de tipos femininos vividos pela atriz Sônia Braga, a mais perfeita encarnação desses personagens, conforme opina Jorge Amado, por representar os traços típicos da mulher brasileira nordestina: mulata, cabelos encaracolados, olhos negros e dinâmicos, estatura mediana, sorriso farto, ancas volumosas, sensualidade à flor da pele e uma força de interpretação dinâmica pouco vista na televisão. Ela já viveu Dona Flor, Gabriela, Tieta do Agreste e a filha-pequena de santo no Gantois. A relação desde o início entre o criador e a criatura foi tão forte que na primeira vez que a viu Jorge Amado intitulou-se seu amante preferido, enquanto esta ao ouvir tal declaração, intitulou-se sua filha dileta.

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