Político

Entre a imaginação da estória, a montagem dos personagens e a perspectiva da narração, Jorge Amado expõe o traço mais característico de sua obra: a profunda crítica social e política que faz de um Brasil que oscila entre o arcaico e o moderno. Ao expor esse país, posiciona-se no tempo como um comunista, sem a cartilha do marxismo, mas filiado ao PCB (Partido Comunista Brasileiro) e ao presidente Luís Carlos Prestes; como um socialista preocupado com um Nordeste mais justo e igualitário e, de vez em quando, como um liberal, capaz de reconhecer que a sociedade é complexa o suficiente para não tomar partido.

A transitoriedade das posições políticas do autor ou a aparente falta de interesse partidário, porém, não devem ser confundidos com passividade ou mediocridade política. Na verdade, Jorge Amado conhece como ninguém o Brasil real das tramas políticas dos coronéis do Norte e Nordeste; dos preconceitos sociais contra mulatos, negros, mestiços; da poderosa força religiosa dos cultos afro-brasileiros e da má distribuição das riquezas e, os seus 23 romances são a melhor prova disso.

Entre a literatura e a política partidária, Jorge Amado opta pelas duas logo no primeiro romance "O País do Carnaval", onde retrata de maneira singular os problemas sociais de sua geração, ao mesmo tempo em que se torna membro do Partido Comunista Brasileiro. Na sua condição de escritor, participa de muitas actividades políticas como o Congresso de Escritores Polacos e o Congresso dos Escritores Romenos, até que em 1951 recebe o Prémio Estaline Internacional da Paz pelo conjunto de sua obra.

Consagrado pelo movimento comunista mundial, Jorge Amado participa em 1954, junto com outros escritores soviéticos, da indicação de Bertold Brecht para o Prémio Estaline, salvando-o da perseguição do PC alemão. Ao mesmo tempo comunista convicto e crítico do sistema, Brecht virou alvo fácil do partido e só não foi para a prisão porque os escritores conseguiram, através do prémio, o reconhecimento de sua obra, sobretudo do seu teatro, tornando-o uma figura mundialmente famosa.

Horrorizado com as ideologias tanto da direita quanto da esquerda, Jorge Amado, deixa o PCB em 1955 após cumprir a sua última tarefa para pensar, como ele mesmo diz, por sua própria cabeça. Estava cansado de ouvir: "Você tem que fazer isso!". A decisão de sair do partido coincidiu com a sua clareza de idéias a respeito da democracia.

"A esquerda em geral não é democrata. Posso dizer porque fui comunista. Lutávamos confessadamente pela ditadura do proletariado, que resultou em ditaduras pessoais e violentas. Democracia não tem nada a ver com ideologia. Ou se é ou não é".

Essa decisão não o tornou um anticomunista, como ocorreu a muitos outros companheiros que abandonaram a causa, mas apenas modificou o seu modo de pensar o mundo. Deixou de achar que tudo o que era rico era ruim, e tudo o que era pobre é bom, um maniqueísmo claramente demonstrado em seus primeiros livros Subterrâneos da Liberdade, O Cavaleiro da Esperança e Cacau, e depois complexizado nos romances seguintes. Passou a aceitar a ideia de que tanto a moral e a nobreza de espírito quanto a vilania e a malandragem são frutos não da riqueza ou da pobreza, mas da vontade do carácter de cada um.

Assim, em vez de partidos, Jorge Amado prefere apostar nas qualidades dos homens. Admira François Mitterand como o grande estadista da Europa; Mário Soares que conheceu em 1948, em Paris, e que considera um homem de grandes qualidades humanas que o poder não corrompeu; o ex-presidente do Brasil, membro da Academia Brasileira de letras, escritor e poeta maranhense José Sarney e o ex-governador da Bahia e atual presidente do Congresso Brasileiro, Antonio Carlos Magalhães, ambos velhos e conhecidos coronéis do Nordeste pela sua capacidade e perspicácia política, mas também pela sensibilidade que demonstram em relação à cultura.

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