António Lobo Antunes

António Lobo Antunes, escritor que leva já quinze obras publicadas, nasceu em 1942, em Lisboa, na zona de Benfica, onde cresceu. "Tive a sorte de ter uma infância muito boa, passada em Benfica que, na altura, era um microcosmos, das várias classes sociais, tudo aquilo misturado, larguinhos, pracinhas."

É o mais velho de seis irmãos. São eles João, que se dedica à medicina, Pedro à arquitectura, Miguel à jurisprudência, Manuel à diplomacia e Nuno à neurologia pediátrica.

De todos os irmãos, foi com João que estabeleceu uma relação mais forte: "... sobretudo com o João, porque vivíamos dois a dois, em cada quarto, e o João era o meu companheiro."

No que concerne à sua relação com a família, Lobo Antunes tem a dizer: "Talvez por na família haver uma grande contenção e uma grande austeridade, ainda hoje falo com o meu pai mais de literatura do que dos nossos sentimentos pessoais… Sou capaz de falar de emoções e sentimentos com os meus amigos, mas, com os meus pais, há um enorme pudor, não sei se estão bem afectivamente, em que partido é que eles votam." (cfr. crónicas)

Relativamente à educação, diz: "Nós somos seis rapazes e tivemos a sorte de os meus pais serem extremamente estimulantes, no sentido de nos fazerem interessar por tudo, desde de cálculo integral até à literatura. Havia uma enorme curiosidade intelectual da parte do meu pai, sobretudo, mas também da minha mãe."

António Lobo Antunes licenciou-se na Faculdade de Medicina, em Lisboa – afirmou ter ido para medicina por acaso. Isso acontecia à maior parte de filhos dos médicos. "Na verdade, nunca quis ser médico. Mas eu era o mais velho e, naquela altura, quando se chegava ao quinto ano, tínhamos de escolher entre ciências e letras. Ora, eu tinha treze anos – o meu pai perguntou-me o que é que eu queria fazer, eu disse que queria ser escritor e, portanto, queria ir, naturalmente para a Faculdade de Letras.(…)lembro-me de o meu pai me dizer, na altura, que, se eu queria ser escritor, o melhor seria tirar um curso técnico, que isso me daria uma preparação melhor. Eu penso que ele estava preocupado com a ideia de eu ter de ser professor de liceu e que tivesse uma vida mais ou menos difícil e triste, e achava que a medicina poderia ser uma via melhor para mim."

Especializou-se em psiquiatria por pensar que era parecido com literatura.

Parte da sua experiência clínica foi praticada em Angola, durante a Guerra Colonial. "Quando fui para África, ainda que contasse com pouca experiência cirúrgica, tinha de fazer amputações, tinha que fazer essas coisas tramadas que há a fazer em tempo de guerra… Então, levava o tratado de cirurgia, o furriel enfermeiro, que não podia ver sangue, ia-me lendo aquilo tudo, os procedimentos, e eu ia operando. Felizmente nunca nos morreu ninguém assim. Portanto, a minha relação com a medicina era essa."

Posteriormente, veio para Portugal: "Depois quando voltei de África, fazia ‘bancos’ em vários sítios porque ganhava pouco dinheiro como interno e, depois chegava a casa e continuava a escrever sempre. Por um lado, funcionava como anti depressivo e, por outro, tinha a sorte de estar com o Ernesto Melo Antunes, que era meu capitão. Recebíamos imensos livros. O relacionamento com Melo Antunes foi decisivo para mim e é uma amizade que ainda hoje dura."

No que concerne à política, apenas uma vez foi militante da APU (1980). No entanto, em relação à questão do poder, afirma estar um pouco distanciado, talvez por formação e herança do seu pai que era anarquista. Lobo Antunes caracterizou numa entrevista o pai da seguinte forma: "Ele é realmente um homem de uma grande visão, de superior inteligência, de grande sensibilidade."

Foi, sensivelmente, a partir de 1985 que Lobo Antunes se dedicou quase exclusivamente ao ofício da escrita. Referiu apenas ter conhecido pessoas do meio artístico depois de se tornar escritor. Entre elas José Cardoso Pires, um dos seus melhores amigos. Embora não directamente ligado ao meio artístico, é de referir Daniel Sampaio, que foi fundamental para a publicação das suas primeiras obras, uma vez que foi ele que se preocupou em falar com as editoras - nomeadamente, a sua primeira obra, Memória de Elefante, datada de 1979.

Os temas abordados nas suas obras são a Guerra Colonial (essencialmente nas primeiras); a morte; a solidão; a frustração de viver/não amar. Numa entrevista em 1992 ao Público, afirmou ter começado a abordar um tema que até então não tinha feito parte dos seus romances: a ternura – "No fundo nos sentimentos, nas emoções, no fundo em face dos grandes temas que acabaram por ser sempre os mesmos ao longo dos livros todos: a solidão, a morte, necessariamente também a vida, depois o amor ou a ausência dele, e penso que cada vez mais a ternura."

A sociedade urbana da média burguesia é a mais retratada nos seus livros, uma vez que esta sociedade caracterizou o seu próprio ambiente familiar. Deste modo, o autor tem necessidade de partir duma base real para a criação das suas obras.

Quanto a publicações, Lobo Antunes tem várias no estrangeiro e quanto a Portugal diz "não ter necessidade de as publicar cá: porque o meu nome não aparece em parte nenhuma, porque recuso tudo: entrevistas, convites. Às vezes pergunto-me porque o faço, julgo que, por um lado, é porque tenho tido lá for a uma aceitação que não encontro cá; depois, porque me aparecem existirem muitos equívocos ao nível da Literatura neste país."

Aludiu numa entrevista à Visão, em Setembro de 96, que as principais influências nos seus livros foram o cinema norte-americano, o cinema italiano, os andamentos da música, e também alguns escritores que o encantaram na adolescência, como sejam: Céline, Hemingway, Sartre, Camus, Malraux, Júlio Verne e Emilio Salgari; mais tarde foi a descoberta de Simenon e posteriormente a descoberta dos russos com Tolstoi e Tchekov. "A minha família tem pouco sangue português: sou meio brasileiro, meio alemão. Fui formado, sobretudo, pela literatura dos estrangeiros, norte-americanos em particular: Faulkner, Scott Fitzgerald, Thomas Wolf." – declarou Lobo Antunes ao Jornal de Letras, em Novembro de 85.

A propósito de numa entrevista ao Jornal Record, em Dezembro de 1996, ter referido a mudança que tudo sofre, nomeadamente a terra onde viveu a sua infância, afirma que o mesmo acontece com as suas filhas que vão crescendo, mas que a imagem delas na infância perdura na memória. O escritor tem três filhas: uma de 27, outra de 25 e outra de 15. Quanto à sua relação com elas, diz: "Actualmente, julgo que é boa. Mas eu nunca pergunto nada, não lhes faço perguntas pessoais. Como a mim nunca me fizeram. O meu pai só me dizia: nunca faças nada de que te possas arrepender. E o facto de haver liberdade obrigava-nos, naturalmente a um maior auto-controle e auto-responsabilização."

Embora dedique a sua vida à escrita, costuma ir muitas vezes ao hospital: "vou ao hospital trabalhar só para não me sentir maluco, porque escrever é uma coisa muito solitária e às vezes, é preciso ver outras pessoas."

Escrever todos os dias é já uma necessidade de Lobo Antunes. "É sempre igual: começo a escrever às duas da tarde, quando posso, às dez da manhã, mas nem sempre é possível, e trabalho até às duas, três da manhã, com uma pausa para almoçar e outra para jantar. " É no seu escritório, uma pequena sala de duas assoalhadas junto do Cemitério do Alto de S. João, que Lobo Antunes escreve. Quanto a mobiliário, apenas uma pequena mesa de tampo de mármore partido, dois ou três sofás de napa sem braços, duas cadeiras, uma cama, um guarda-fato, um cabide de pé e um televisor sobre a alcatifa; uma das paredes está decorada com minúsculas fotografias e cromos de jogadores de futebol, essencialmente do Benfica e da década de 60.

Sobre a escrita, Lobo Antunes diz: "Eu escrevo livros para corrigir os anteriores, E ainda tenho muito para corrigir." Numa outra entrevista afirmou também: "no fundo, a nossa vida é sempre uma luta contra a depressão e, em relação a mim, escrever é uma forma de fuga ou de equilíbrio… Por outro lado, há a sensação de qualquer coisa que nos foi dada e que temos obrigação de dar às outras pessoas: quando não trabalho sinto-me culpado. Há ainda a sensação do tempo, ou seja, ter na cabeça projectos para 200 anos e saber que não vamos viver 200 anos..."

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