Autocrítica - Manual dos Inquisidores
"N`O Manual..., como nos meus últimos livros, procurei escrever uma história em que as personagens se iluminassem umas às outras, sublinhar as contradições tremendas das pessoas, o que elas são difíceis de julgar. Pareceu-me que era importante dar um retrato daquilo a que se chama direita visto pela própria direita. Não há ali nenhuma personagem revolucionária, mesmo os pobres são conservadores. Lembro-me de um chauffeur particular que, a seguir ao 25 de Abril, me dizia que votava no CDS, porque, se acabassem os patrões, ele perdia o emprego. Essa gente, poderosos e pobres, que pretendo retratar. Por outro lado, não pude deixar que os maus fossem completamente maus, e por isso também lhes dei o lado humano."
in Visão, 26 de Setembro de 1996
"Este livro é visto sempre pelas pessoas que estão todas de um lado só (...) aparecem alguns pobres, mas inquinados pelos pontos de vista dos patrões. O próprio 25 de Abril é visto do ponto de vista dos pobres."
"Eu acho o livro profundamente alegre. Talvez um dos livros com mais humor que eu já tenha escrito. (...) No final o antigo ministro está cheio de esperança."
"Mas queria que o livro comovesse e fizesse rir e te sentisse perto da vida. Sobretudo tentando aperfeiçoar a forma de as pessoas se iluminarem umas às outras e de nós percebermos como elas são infinitamente contraditórias. Por exemplo: a personagem do velho é capaz da ternura e de coisas de uma estrema crueldade e violência. Uma das coisas que me impressionou nele e quase me comoveu foi o profundo amor dele pela mulher desaparecida. (...) que o traiu. E a tentativa de ele a recuperar através de outras mulheres."
"Não acho o livro magoado. Posso achá-lo violento e cruel, terno, mas magoado não. Houve alturas em que senti que a coisa me sentia como a «Cavalgada das Valquírias», no «Apocalipse Now» ."
in Jornal de Letras, Artes e Ideias, Setembro de 1996
"(...) a sua [do ministro] frase fica em suspenso, porque eu próprio não sei muito bem o que estaria na sua cabeça. (...) No fundo todos os romances ficam suspensos, todos."
"As personagens continuam a existir agora. Pareceu-me importante confundir os tempos, para conseguir uma história intemporal, mesmo correndo riscos de tornar a história pouco crível e de dar ao leitor uma ausência de tempo."
in Escrita em Dia, SIC, 1996, com Francisco José Viegas
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