Crítica - Manual dos Inquisidores
"Christoph Buchwald, da casa livreira Luchterhand, responsável pelos cinco livros de Lobo Antunes publicados na Alemanha, fala de um sucesso merecido para uma obra de «verdadeira literatura mundial»."
in A Capital, 21 de Outubro de 1997
"O seu realismo, que chega a ser da espécie do hiperrealismo, realiza-se quase sempre como um realismo que vai para além dos seus próprios fins, encontrando-se com a caricatura: caricatura das personagens, caricatura do ambiente, caricatura das situações. Caricaturar, aqui, significa exagerar nos traços que remetem para características e elementos estereotipados."
"Em O manual dos Inquisidores, a justaposição e a acumulação anárquica são os processos através dos quais se representa um mundo que está sempre preenchido em excesso."
"(...) a narração é assegurada inteiramente pelas personagens, que se vão sucedendo e alternando. O romance é, pois, constituído por instâncias discursivas que se confrontam, por uma pluralidade de vozes e de perspectivas distintas."
in Expresso, 26 de Outubro de 1996
«É como se fora uma epopeia. Às avessas. A queda em vez da ascensão, as misérias em lugar das grandezas. O cenário de fundo é o de uma família, seu poder, sua decadência, e, mais repugnante ainda do que o velho patriarca possidente, é a vampiragem que lhe haverá de suceder. Ou suceder na posse do símbolo do seu império. «O Manual dos Inquisidores» é isto. Isto e, pelo meio, uma história de amor. Infeliz. Grotesca. Com a razão e a desrazão confundindo-se. Tal como o passado, o presente e o futuro se confundem também. Ou amiúde são vividos, numa simultaneidade de sentires. Como filamentos da memória reflectindo-se no espelho quebrado das perda das identidades.
Se o pano de fundo traz à boca de cena um amor funesto, o romance não descura secundários e figurantes que se cruzam com os protagonistas. E, em jogos de luz e sombra, os iluminam. E são múltiplas estas segundas figuras. E diversas. Personagens, não já, porém - tipos. Tipos, vistos pelo olhar de um caricaturista. Despuradamente sarcástico, acanhadamente terno.
A visão de conjunto é aterradora, porque, na verdade - como soe dizer-se - deste romance ninguém sai vivo. Rimo-nos, não raro, sem dúvida. Ao riso, contudo, sucede, de imediato, o esgar. De dor. Pela dor alheia. Ainda que a dor alheia não a sintam eles, os que era suposto senti-la, mas nós. Nós que sentimos nossa essa dor que era sua. Imaginando-nos na pele deles. Ou do lado de cá. Observando... - a violência, o desprezo, a demência, a cobardia, a menoridade, a mesquinhez, a hipocrisia, a ganância, a vacuidade de medíocres sonhos. Tudo vazio de sentido como a vã glória do poder. Antes, durante e após o 25 de Abril.
É um livro sobre o poder, é. Não, todavia, sobre o poder do Estado. Sobre os estados do poder. Mas o que, página a página, do romance a avulta é um outro poder: o de uma escrita. Totalmente dominada pelo seu autor, numa plenitude criativa que faz do 11º romance de António Lobo Antunes não sei se o seu melhor (e que é que isso interessa?),mas um extraordinário romance. Irrecusavelmente.(...)»
in Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 25 de Setembro de 1996.
«(...) A trama implicada nesta indiciação revela por si só que, através de uma construção romanesca muito elaborada, se procura desenvolver uma saga familiar fixada na ideia da casa tutelar e na figura dominante do Pai, percorrida pela fantasmatização da Mãe ausente, e tonalizada pelos matizes de mudança e transformação impostos pelo tempo. O salazarismo, o 25 de Abril, a corrosão empresarial, a banalidade pequeno-burguesa, a boçalidade camponesa e militar, a incultura, a passividade intelectual, os laços e as decepções da afectividade e os impulsos do sexo são facetas dessa temporalidade na parte exterior da sua manifestação, mas constituem o texto no interior mesmo do seu pensamento monologal, que apenas a justaposição dos pontos de vista torna plural sem nunca lhe permitir uma relação efectiva de comunicação.(...)
Assim, o tempo é a instância subjectiva matriz deste texto, pelo que implica de discursificação de existências solitárias na relação desgarrada e arbitrária com os outros, que também se assumem como detentores da experiência temporal e do acesso ao discurso, anulando o romanesco convencional dos caracteres de excepção. Em vão o leitor tentará identificar-se com uma das personagens, como quase sempre no romance acontece, porque cada uma delas desenvolve uma determinação heróica que constantemente se autodestrói pela anexação de elementos de negatividade na peripécia narrativa ou num percurso semântico de abjecção.(...)
O romance é, pois, uma espécie de inquisição ao passado sobre a sua capacidade de determinação colectiva ontológica, e de elegia sarcástica sobre a nulidade de um presente cujo único projecto é o de uma frase fragmentada, inacabada, lateralizada. O tempo presente é o da evocação, quando muito o da assunção actual do peso da memória e da sua determinação sobre os gestos incertos, débeis, meros esboços de actos, da prática quotidiana na sucessão de momentos que configuram o existir. E, no entanto, o quotidiano é uma das forças maiores nos mecanismos da construção deste texto; o plano da representação, embora fundamentalmente descritivo e monologal, ganha nele um corpo que lhe transmite uma densidade social aguda e uma historicidade que lhe corresponde. Parafraseando Michel de Certeau, nesse livro ainda hoje muito importante que é L'Écriture de L'Histoire, em O Manual dos Inquisidores o romance não é histórico, mas é um romance que encontra no seu caminho a História(...).
Por outro lado, trata-se de um saber quem fala, neste romance, ou melhor, de onde e para quem se orientam as falas de João, de Titina, de Paula, de Milá e do Pai. Ou, por outras palavras: quem são os inquisidores? Disse há pouco que este texto inquire sobre o passado (...); assim, a partir da diversidade por vezes desconexa de identidades, ele inquire também sobre o país, sobre a pátria, sobre a Mãe, sobre a legitimação. E as personagens falam, conforme se verificará numa análise do texto a alguém que inquire. (...) Os inquisidores podemos ser também nós, leitores, e deste modo se prolongaria o alcance ético do romance, numa implicação generalizada de responsabilizações que o texto em si não está interessado em assumir.(...)
in Jornal de Letras, Artes e Ideias, de 6 de Novembro de 1996.
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