Crítica - Crónicas

"Sem pretender fazer destes textos mais do que eles são, julgo no entanto que neles, por igual, se evidenciam alguns traços marcantes da conhecida expressividade do autor. A agudeza na observação, a vivência das coisas e dos seres, o realce do pormenor aliado a esta permanente recriação da linguagem (...)"

"(...) na fulgurância do olhar, notas que lembram planos e ângulos cinematográficos. Melhor do que o faria um estudo de psicologia, há nestes trechos (circunscritos a Lisboa, suas gentes e arredores) uma capacidade invulgar para captar as malhas dum quotidiano insignificante - vidas aleijadas, aprisionadas, emudecidas, destinos vulgares sem outro rumo que não seja o de ir vegetando por entre formas precárias de conformismo e mediocridade."

"Realismo descritivo e crítico (...) o gosto da caricatura e do sarcasmo temperados apesar de tudo por canduras e inocências (...)"

"Na realidade é um Portugal tristíssimo, e quem o descreve não ignora que dele tem uma saudade antecipada porque tudo o que morre, por igual, nos pertence. Daí que haja em contraponto, para lá da comicidade grotesca ou patética de certas situações, uma espécie de angústia opressora que nasce dessa frustração resignada que é afinal tão tragicamente portuguesa, e constitui como que o bilhete de identidade dum país inteiro.

É, aliás, como sempre, nessa dosagem entre ferocidade e ternura que Lobo Antunes melhor exprime o legado da sua singularidade."

in Jornal de Letras, Artes e Ideias, ano XV, nº642, Maio de 1995

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