João Lobo Antunes

João Lobo Antunes foi a décima personalidade a receber o Prémio Pessoa. Em entrevista ao Expresso fala da sua vida, dos seus interesses e das suas dúvidas. Foi apresentador de televisão, coleccionou vintes na Faculdade e chegou ao topo da carreira. Apesar disso continua supersticioso quando tem de operar um doente.

“Trabalha muito. Faz 300 operações por ano, tantas, que ganhou calos nas mãos pelas horas que passa no bloco operatório. Publicou um livro intitulado "Modo de Ser". O neurologista João Lobo Antunes, vencedor do Prémio Pessoa, diz que já não tem ambições, e que não se vai importar quando se reformar. Antes pelo contrário. Realização, prestígio, dinheiro, tudo isso já ele tem há muito. Mas continua, até porque, como diz, precisa de ensaiar. Para fazer bem tem de perder muito tempo nisso. Considera a neurologia uma profissão de risco e prefere nem tentar aventuras. Mas desenvolve toda uma ideia de performance em torno da operação. Descreve-a como um acto estético, para o qual já quase não necessita de instrumentos. No seu discurso há uma permanente preocupação artística e literária, bem a condizer com os quadros que lhe enchem a luxuosa casa em Cascais - a mesma onde durante uns meses viveu Wallis Simpson com o homem que não abdicou dela - e com os seus muitos livros, na grande maioria em inglês. Entre esse ambiente e o dos hospitais onde trabalha (incluindo o muito menos confortável dito de Santa Maria), decorre grande parte da sua vida. Sempre foi assim. Em pequeno vivia com o seu irmão António e os outros numa vivenda em Benfica. Uma vida isolada, quase de redoma. E agora vive ali, fechado como antes. Fechado no trabalho, como o pai os habituou. Nos EUA esteve doze anos. É um «achiever», e tem evidente prazer em referir os vinte que teve na Faculdade, os quais foram muitos."

" Nasceu em Lisboa, numa família tradicional portuguesa. Teve uma educação essencialmente conservadora.

Não diria isso. O meu pai é neurologista. A mãe estava em casa. Nós somos seis rapazes. (…) Era uma educação muito rigorosa, muito espartana. Vivíamos em Benfica, numa casa que ainda existe. Éramos os privilegiados, da elite de Benfica. A minha mãe era Almeida Lima, ou seja de outra família ligada à Medicina. (…) Vivíamos uma vida bastante isolada."

" A escolha dos estudos era condicionada por alguma pressão familiar? O pai era médico, tem três filhos médicos...

Não havia pressão. Pelo menos, nem eu nem os meus irmãos a sentíamos como tal. (…) Fiz toda a carreira sem influências nenhumas, sem protecções."

"De qualquer modo, todos têm carreiras muito bem sucedidas.

Somos todos «achievers», se quiser. Isso somos."

"Isso vinha mais do pai ou da mãe?

Quando foi anunciado o prémio, senti que já tinha tido uma sensação parecida, e não sabia o que era. Só depois descobri que foi da primeira vez que tive um vinte na faculdade. Era uma coisa excepcional, que nunca tinha acontecido naquela cadeira. Lembro de Ter aberto a caderneta e ver lá um dois e um zero, uma coisa esquisita. Mas o meu pai nesse aspecto, não pressionava. Não dizia que uma coisa era errada, mas sim que era estúpida. Era muito racional. A asneira era asneira não por ser má, mas por ir contra a razão das coisas."

"No seu caso, o estímulo para estudar vinha de onde?

Era interior, era meu."

"E competição com os irmãos, não havia?

Acho que não. Os grandes momentos são ainda quando a gente se junta os seis. São todos pessoas em cuja companhia é interessante estar."

"Em termos de formação política e religiosa, era-lhes passada alguma no ambiente familiar?

Não. Era uma família tradicionalmente católica."

 "Como decidiu ir para Medicina?

Foi uma decisão de ultima hora. Eu tinha tido 20 a matemática e por isso todos pensavam que ia para Ciências, para Física ou Bioquímica."

"A ligação da sua especialidade com a do seu irmão António é curiosa.

Com o António passou-se uma coisa engraçada. Ele entrou para a faculdade dois anos antes de mim e acabou um ano depois. Depois de eu o ultrapassar, nunca mais perdeu exame nenhum. Tem uma memória inacreditável."

"De elefante...

Sim. Depois ele foi para África e eu para os Estados Unidos, estiva lá treze anos e quando voltei ele fazia psiquiatria, mas já não era a sua grande ocupação. Nunca chegamos a ter contactos profissionais."

"Voltando à Faculdade. Logo que entra, torna-se um brilhante aluno, enquadrou-se perfeitamente nos ritmos...

Não sei como foi. No primeiro ano tive um dezassete, e de repente dispara. Começo a dominar perfeitamente o método de estudar Medicina. Cheguei ao fim do curso com dezanove vintes. No último ano, eram nove cadeiras e tive seis vintes. "

"O alvo foi sempre uma espécie de espírito de missão...

Não, o alvo era eu. Achava sempre que tinha de saber tudo. Como o Nemésio, que dizia : «Li muito, li tudo para o que desse e viesse». Acho que é o meu mote. "

"Tinha contacto com doentes quando estudava?

Sim. E trabalhávamos mais do que trabalham estes agora. Eu estava em Santa Maria, ia ao Júlio de Matos fazer neurocirurgia como voluntário, fazia uma consulta na Casa de Saúde dos Empregados do Comércio, depois ia a Casa de Saúde da Idanha. Hoje em dia eles saem do hospital e querem é ir para casa. Sabe, comento isto com o caso de um médico chamado Merritt, um neurologista que veio cá ver o Salazar. Porque é que ele era o maior neurologista da sua geração? «He never missed a chance to see another pacient». "

"Isso pressupõe um espirito de missão.

Não."

"Obsessão, pelo menos.

Era obsessão. É uma coisa muito obsessiva. Leio revistas médicas continuamente, do princípio ao fim. É um ritual. Se não cumpro os rituais..."

"Há pouco falou de rituais. É capaz de dar um exemplo?

Tanta coisa. Olhe, as gravatas. Durante toda a minha vida de estudante usei sempre a mesma gravata para os exames. Uma gravata de seda, que depois começou a ficar fininha e já não se usava. Usei-a sempre até ao dia em que fui entrevistado e entrei para a Universidade de Colômbia."

"Como é, em geral, a relação com os doentes? Calorosa?

Bem, há muita gente que me acha distante. Não percebo. Fico triste."

"A julgar pela amostra, não é uma pessoa muito jovial...

Não sou jovial? Acho que sou normal. Vou-lhe contar uma história. Eu andei com o Eduardo Prado Coelho na mesma turma do liceu. No segundo ou terceiro ano, tínhamos de fazer um pequeno ensaio. O Prado Coelho fez sobre a Psicologia. E a certa altura, dentro dos vários tipos, o jovial, o colérico, etc., ele dizia: «O Lobo Antunes é fleumático». Quando soube isto achei muita piada."

in Expresso, 21 de Dezembro de 1996

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