Comentário - Crónicas

A impressão que ressoa das crónicas de Lobo Antunes é a falta de espaço. O autor vê-se emparedado por um mínimo e um máximo de caracteres e não se pode espraiar como o faz nos seus romances. A extensão limitad(íssim)a ditada pelo condicionalismo técnico de uma crónica de revista de jornal de Domingo soa a uma espécie de tentativa de concentrado de quem já publicou uma obra de quase setecentas páginas ("Fado Alexandrino", 1983), não passando quase sempre do ensejo, acabando por saber a pouco, sobretudo aos que já percorreram pelo menos uma das suas obras.

As crónicas abordam os mesmos temas, apresentam as mesmas personagens, narram as mesmas acções e descrevem os mesmos factos que livros como "A Morte de Carlos Gardel", deparando-se-nos recorrentemente nas palavras do cronista a vida numa multiplicidade de situações, as gentes, ele próprio, objecto tomado autobiograficamente de forma continuada.

É, aliás, notória a invasão dos livros nas crónicas (e não o contrário), de que "Os Pobrezinhos" é um excelente exemplo (confronte-se com "Manual dos Inquisidores").

Em jeito de remate, fica a ideia de que António Lobo Antunes não parece talhado a estas crónicas de Domingo mas que ainda assim, apesar de não ferrar, consegue com elas, e quando foca sobretudo a solidão, incomodar (sendo que destacamos: "A Solidão das Mulheres Divorciadas", "A Propósito de Ti" ou "O Fim do Mundo") ou fazer-nos sorrir, ainda que acabemos a troçar de nós ( como em: "A Consequência dos Semáforos").

comentário a cargo de Nuno Barbosa

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