O Cão e os Calús

Escrito de 1978-1982 foi arranjado para publicação em 1984 e publicado em 1985.

Obra datada, o livro é um conjunto de crónicas críticas, espinhos no regime. O autor terá tentado deixar o seu testemunho de uma rápida e demasiado perceptível mudança da sociedade angolana.

Feitas as dedicatórias, o livro abre com um aviso ao leitor; uma carta com data de 2002, 20 anos depois dos factos que o livro irá narrar, um aviso escrito em "Calpe". Um artigo de Fernando J.B. Martinho, na revista vértice nº 55, recorda-nos que Calpe representa, na obra Muana Puó, a cidade do sonho, a utopia do futuro.

Importa ressaltar a diversidade de géneros discursivos que o autor utiliza nesta obra, criando um produto final uno, coeso de diversas peças que lhe permitem reconstruir a estória do pastor - alemão entre os caluandas. Estes, os calús, aparecem todos diferentes, peça a peça, dando-nos mosaicos com tipos ou personagens representativos da sociedade luandense nos períodos de crise por que Angola vem passando.

Quanto ao pastor alemão, o fio condutor desta obra, comporta-se de forma igual a cada novo capítulo, aparece de súbito na vida dos personagens, para, pouco depois, desaparecer. O cão é o elemento catalisador que torna possível a estória das personagens.

E os personagens vão contando a estória do cão, um poeta, Tico, com um poema publicado no jornal. Filho de uma quitandeira que vive da especulação facilitada pelas dificuldades de abastecimento de produtos alimentares essenciais. Tico, "a quem o verbo fácil, os estudos, a frequência do liceu, a assimilação superficial das ideias em circulação, de que na ideologia reinante se reduz às fórmulas estereotipadas dos slogans ou das palavras de ordem, servem para justificar o viver a expensas da mãe" (Fernando J.B. Martinho, revista Vértice nº 55 pag. 45). Para Tico o cão é um "parasita", um "explorador". Temos depois o primeiro oficial e com ele a denúncia de Pepetela à burocracia e à corrupção; um filho de catete, para quem os problemas de Luanda têm origem na "diversidade da população" e com esta personagem a denúncia do tribalismo; o branco, técnico, a fugir do rótulo "colono" e a calar, por isso, os roubos do colega negro, estória para encontrarmos o argumento racial; o "dirigente", funcionário do partido, o barra na teoria e a chamada de atenção do autor para a "doença da reunite" de que padecia a sociedade angolana; o operário, rei do "auto-consumo" que se governa com o que produz montando os seus "esquemas e que tenta, na obra, corromper o próprio autor; a "quitata de luxo" no engate aos cooperantes para ter os produtos a que só eles têm acesso: o uísque, perfumes caros, vestidos, sapatos. E se são muitos os personagens a contar o rota do cão, são muitas também as formas como o fazem: em depoimento gravado, num conto, uma carta ou um recorte de jornal, actas de reuniões, relatórios, ofícios burocráticos e até um diário de uma adolescente onde ficamos a saber que o cão se chama Lucapa embora nunca saibamos onde o "autor" arranjou o diário. Se não se pode considerar descurada a preocupação literária será fácil no entanto constatar que ela terá sido menor em função da urgência de dizer as coisas. Cada estória pode ser lida individualmente ligada pelo cão que segue o percurso de todas as estórias com a buganvília. A preocupação literária não está descurada mas foi menor em função da urgência de dizer que as coisas não iam bem. Foi um livro que mexeu com as pessoas na altura. Um livro a fazer história mas mais datado. Os mais novos já não o entenderão. Na altura foi um livro fundamental de crítica jornalística, é um livro mais efémero. Só quem viveu a situação ou situações semelhantes entende o livro se o ler hoje. O objectivo terá sido retratar essa época.

[ CITI ]