Lueji - O Nascimento de um Império

Levou três anos a escrever, tendo um ano sido dedicado exclusivamente à pesquisa.

Lwegi é, por assim dizer, o apurar daquilo que o autor havia já anunciado em Mayombe e mais tarde em Yaka, a subtil combinação da história com as possibilidades fornecidas pela literatura. Lweji é construída a dois tempos, são duas histórias separadas 400 anos uma da outra, uma complexa busca de identidades estabelece o elo entre história e quotidiano. Ana Paula Tavares no seu artigo na revista Vértice nº 55, situa 1985, o ano em que Pepetela escreveu Lweji, entre dois acontecimentos importantes ocorridos em Luanda o "Simpósio Sobre Cultura Nacional", em 1984 e o "Colóquio sobre a Dimensão Cultural do Desenvolvimento" em 1989. Ana Paula Tavares aponta os dois acontecimentos como "balizas para uma época ainda decididamente marcada pelas opções do discurso oficial e no entanto perturbada aqui e ali por vozes que individualmente ou em grupo tomam posições no sentido de anunciar a crise (ou as muitas crises)." (Vértíce, pag 52).

Lweji cria um estranho bailado, ao ritmo da estória, entre passado e futuro permitindo que duas mulheres, Lweji e Lu liguem os seus destinos. Geográficamente a imensa e misteriosa Lunda, o reino de Lueji, Luanda cuja topografia se vai traçando no desenrolar da estória de Lu. A cidade é, para Ana Paula Tavares, " o espaço do drama político, de uma sociedade que se hierarquiza e desagrega num tempo que por não ser passado não se pode ainda medir ou avaliar com métodos próprios da história." (in Vértice nº 55 pag.51.).

E neste situar geográfico de Lueji não vamos esquecer Benguela, a terra Natal do autor, onde nasceu Lu, a personagem moderna da obra, que tem uma avó Lunda que lhe povoou a infância de legados antigos que a obrigam a percorrer o país à procura das inúmeras respostas de que precisa para se construir.

Na Lunda temos o mergulho na história longínqua do país uma opção que para Ana Paula Tavares, historiadora, não é inocente " mas uma opção e a procura de uma verdadeira escrita da terra na medida em que a nação angolana se inscreve num território habitado pela memória de outras nações ou impérios (um e outro conceito polémico e frequentemente empregue à mingua de soluções melhores definidoras de tão complexas realidades políticas e culturais) mais antigos." (in Vértice nº 55 pag.51)

Lueji, a rainha "cumpre o papel de depositária do saber, depois de um longo aprendizado de poder e saber" (Ana Paula Tavares in Vértice nº 55 pag 51) e vive em cenários que o autor cria de uma beleza extraordinária o seu amor por Tchibinda Ilunga, um caçador Luba, nem Lunda nem Tchokwe portanto. Esta história de amor "foi a forma que a tradição guardou e transmitiu, uma alteração de linhagem e o reforço e centralização do poder, através de casamentos entre Lundas e estrangeiros, factos que ocorreram frequentemente no tempo em que se solidificava o império Lunda antes da sua desagregação" ( Ana Paula Tavares in Vértice nº 55 pag. 52)

Lueji não foi escrito para cinema, mas podia ter sido. Não resistimos em chamar a atenção para a beleza e o pormenor com que Pepetela descreve os cenários, sobretudo nas cenas de amor entre a rainha e o seu caçador Luba.

Sendo uma obra de indelével marca histórica é o próprio autor quem nos confidencia que não se sentiu, nesta obra, amarrado ao rigor histórico- como acontecera em Yaka. " O mito é demasiado antigo. Quem escreveu sobre ele fê-lo quase três séculos mais tarde...é difícil o rigor histórico nestes casos." - Pepetela.

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