As Aventuras de Ngunga

"O Ngunga não ia ser livro. Eu estava no Leste e estava a fazer um levantamento das bases do MPLA, pela primeira vez ia-se saber quantas bases havia, quantos homens havia, quantas armas...eu ia de base em base e ao mesmo tempo acompanhava o ensino, dava uma ajuda aos professores com os manuais de matemática que eram da Ex RDA, demasiado modernos, e os professores tinham dificuldades com eles, comecei também a aperceber-me que os miúdos só tinham os livros da escola para ler o português, conclui que era preciso fazer textos de apoio, é aí que começa o Ngunga. Eram textos muito simples que pouco a pouco se iam tornando mais complexos. Como ainda assim não era suficiente os textos eram traduzidos para Mbunda e depois eu tentava dar-lhes regras gramaticais reescrevendo o Mbunda, assim os miúdos podiam aprender a ler na sua língua e recorrer a ela sempre que tivessem dificuldade nalguma palavra em português. Quando acabei cheguei à conclusão que aquilo era uma estória, dei-lhe um fio condutor e mais tarde decidimos publicá-lo. - É assim que o próprio autor nos conta como surgiram, em livro, as Aventuras de Ngunga.

Escrito e Publicado em 73, em Stencil, pelos serviços de cultura do MPLA. Ngunga é uma história bonita, com uma função didáctica. O jovem de caracter determinado, recto, que segue o percurso de outros "pioneiros" com a guerrilha do MPLA e se faz homem aprendendo a pensar pela sua cabeça.

A obra é também uma obra de história que descreve os percursos pelo interior do país dando a imagem dos ideais políticos do movimento ao qual Pepetela pertencia indo à história das tradições de Angola que o autor retrata e critica, como no exemplo da jovem Wassamba, que se apaixona por Ngunga num amor impossível...Wassamba era uma das mulheres do Soba.

Em "As aventuras de Ngunga" Pepetela mergulha também na descrição da geografia, da fauna e da flora do país, as cores dos pássaros e as árvores à sombra das quais o professor dava as aulas, são descritas com pormenor. Escrito durante a guerrilha o livro trás a carga da intenção de vir a ser usado no ensino, como foi, quer nas aulas ministradas pela própria guerrilha, e que a obra descreve, quer no ensino oficial em Angola, depois da independência.

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