Blimunda

Diversos excertos do Memorial do Convento de José Saramago, foram transformados numa ópera que subiu à cena em Maio de 1990, e cujo título, Blimunda, se refere a uma personagem do livro, uma mulher que, em jejum, via os corpos à transparência.

José Saramago que manteve durante dois anos contactos com o maestro Azio Cargui, que escreveu o libreto, consentiu esta adaptação da sua obra à ópera, pois ela inspira-se apenas em quatro ou cinco elementos dramáticos.

Blimunda foi a figura central do espectáculo; trata-se de uma mulher de estranha beleza e dotada de poderes ocultos, que acompanha Baltasar Sete-Sóis, um ex-soldado maneta e gancho no coto, nas desventuras da Inquisição, na aventura da Passarola de Bartolomeu de Gusmão e nos episódios da construção do Convento de Mafra. Blimunda recebeu a voz de uma cantora sueca, Katia Lytting, enquanto um inglês, William Lewis, encarna Baltasar.

O encenador conseguiu traduzir a violência e a vocação herética de O Memorial... sem destruir a harmonia vocal ou sopro lírico de certas passagens. As cenas de amor físico, com corpos nus que num momento sugerem e noutro denunciam o acto amoroso, contribuíam para realçar a paixão e a utopia contidas no romance. Cenários e figurinos eram adequados, majestosos.

A finalizar, um coro de padecimento e martírios, numa luz branca de morte, anunciam que Baltasar não ficou com Blimunda.

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