Escritor censurado depois de 18 anos de liberdade

"Público - Como se sente na pele de um escritor censurado, dezoito anos depois da Revolução de Abril? Porque antes do 25 de Abril, era normal para si ser censurado...

José Saramago - Sim era normal. Não tanto como escritor - porque os livros que publiquei antes do 25 de Abril nunca foram objecto de censura - mas como jornalista. Em 1972 e 1973 trabalhei no "Diário de Lisboa " com funções de editorialista e todos os dias se guerreava com a censura.

Não esperava que, depois do 25 de Abril, se repetissem comportamentos desses, nessa altura institucionalizados. Embora a exclusão do meu romance Evangelho segundo Jesus Cristo tenha também um carácter institucional, porque não foi uma medida extemporânea. É uma decisão tomada por uma instância do Governo e foi no exercício de uma autoridade governamental que a decisão foi tomada. Quanto ao espírito: estou triste e indignado. Sinto-me também estupefacto: nos primeiros dias após a decisão governamental, perguntava-me se isto estava de facto a acontecer.

Mas o Governo, Secretário de Estado da Cultura e Subsecretário tiveram a resposta que mereciam: repúdio. O que não diminui a indignação, contaminada por um sentimento de profunda tristeza."

SEPÚLVEDA, Torcato, "José Saramago critica os responsáveis da Cultura" in O Público, 10 de Maio de 1992, pág. 40.

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