Como aconteceu...
José Saramago, nos Cadernos de Lanzarote, Diário II, recorda como tudo acontece. Teve a ideia em 1991 enquanto almoçava no resturante Varina da Madragoa, mas somente três anos mais tarde é que anotou as ideias num caderno preto que usa. Estas foram algumas dessas notas:
«Da ideia inicial direi que ficou tudo quase nada: é verdade que escrevi o que queria, mas não escrevi como o tinha pensado. Basta comparar a inspiração de há quatro anos com aquilo que o Ensaio veio a ser. Eis o que então anotei: 'Começam a nascer crianças cegas. Ao princípio sem alarme: lamentações, educação especial, asilos. À medida que se compreende que não vão nascer mais crianças de visão normal, o pânico instala-se. Há quem mate os filhos à nascença. Com o passar do tempo, vão morrendo os 'visuais' e a proporção 'favorece' os cegos. Morrendo todos os que ainda tinham vista normal: reacção de estranheza, alguma vezes violenta, morrem algumas crianças. O processo inverte-se até que - talvez- volte ao princípio uma vez mais.' Compare-se... Quanto à palavra inspiração que aí ficou atrás, esclareço que a empreguei em sentido estritamente pneumático e fisiológico: a ideia andava a flutuar por ali, no oloroso ambiente da Varina da Madragoa, eu inspirei-a, e foi assim que o livro nasceu... Depois, pensá-lo, fazê-lo, sofrê-lo, já foi, como tinha de ser, obra de transpiração...»
in Cadernos de Lanzarote, Diário-II, Lisboa, Editorial Caminho, 1994
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