Como nasceu O Evangelho...

"O romance nasceu de uma ilusão óptica. Se eu tivesse uns olhos bons, o livro nunca teria existido. Em 87, estou eu em Sevilha, junto à Calle Sierpes, e ao olhar em frente, para um quiosque, vejo o título Evangelho segundo Jesus Cristo, em português, coisa completamente impossível. Parei e pensei: não posso ter visto o que vi; resolvi ir verificar. E, de facto não estava lá nem Evangelho, nem Jesus Cristo... alguns dias depois já estava a pensar o que é que isto daria, e a arranjar algumas ideias para uma história sobre Jesus. Entretanto, tinha a História do Cerco de Lisboa para escrever. Em 89, quando fui a Bolonha com o Mário Soares, entrei na pinacoteca de Bolonha e, de repente, sem saber como, vieram-me à cabeça os três ou quatro pontos de apoio, sólidos, de que necessitava para começar o livro. Ainda hoje tenho aí essas notas... Aqui estão... Escrevi «Bolonha, 12 de Abril de 1989, de manhã, pinoteca»; e depois escrevi «evidência súbita, iluminação, deslumbramento quase, a história encontrou os seus pontos de apoio e ligação»; seguem as notas tomadas na ocasião(...) isto é importante «Jesus tem um encontro com Jeová que lhe revelará o futuro, não apenas o seu próprio mas também o da religião que será fundada na morte necessária de um mártir. Jesus recusa esse papel e foge. A história a contar será então longa mas não interminável fuga. Os milagres serão operados por Jeová à frente de Jesus para o forçar a aceitar a proposta»."

ALVES, Clara Ferreira, " No meu caso, o alvo é Deus" in revista Expresso, Lisboa, 2 de Novembro de 1991, págs. 82-86.

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