As contra-reacções

"Claro que ao Presidente da República e ao primeiro-ministro e ao ministro da Cultura e a todos os promotores do país, em geral cabe esticar a coisa. Esticar o feliz evento como se fosse um mega-guarda-chuva onde todos nos podemos abrigar por instantes. Todos banhados de glória. Por instantes. Que é também uma vitória da língua portuguesa e da literatura portuguesa e dos portugueses e etc. e etc. e etc."

Paula Moura Pinheiro, In O Independente, 9 de Outubro, 1998

"Ninguém mais é para aqui chamado senão ele (Saramago) e a sua obra. O orgulho é de todos os falantes da Língua Portuguesa, com certeza, sejam ou não leitores do laureado. Mas nada mais se premeia com este Nobel senão o trabalho do escritor. A sua consagração mundial há-de chamar a atenção para a Literatura em português no seu conjunto, que muito justamente beneficiará, por ser um dos seus que vai receber a mais alta distinção que se pode almejar. Mas se o talento é tão singular e absolutamente intransmissível, se a escrita é, como facilmente se compreende o trabalho mais íntimo e solitário que existe, não há Nobel tão pessoal como o da Literatura, entre todas as disciplinas que a Academia sueca considera e distingue, ano após ano. Eis um prémio de que ninguém mais pode reclamar a mínima parte, ainda que muitos venham, como é natural, a colher dele algum benefício. Do país inteiro, das suas instituições e dignatários, o que se espera é só isto: que saibam agradecer a José Saramago, com a nobreza devida ao mérito de um grande maratonista da arte de romancear e sem os oportunismos espúrios que algumas vezes emergem em situações desta natureza. O melhor é dizer apenas, como se diz nos painéis que a Câmara de Lisboa já pôs na rua: «Parabéns, José Saramago!»"

in Expresso, 10 de Outubro, 1998

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