Crítica

"A teatralização de personalidades exemplares da história literária (...) oscila entre a narrativa biográfica, mais ou menos fiel, mais ou menos fantasiada, e uma finalidade didáctica que extrai da luta do artista com o meio social que foi o seu, a matéria-prima para o ensinamento que se propõe. Na intersecção destas duas linhas se situa, precisamente, a peça de Saramago, que no entanto evita com superior inteligência os escolhos inerentes a uma e outra: nem o rigor histórico se dilui numa ilusória fidelidade arqueológica ou no recurso fácil de anacronismos, nem a invenção poética abdica dos seus direitos sem deles todavia nunca abusar, nem a lição que a obra se desprende («a moral da fábula», diríamos antes) é posta em regras que, à maneira dum catecismo, o aluno/espectador deverá decorar..."

Luiz Francisco Rebello

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