Crítica

"O Manual de Pintura e Caligrafia é uma obra impar no género da literatura autobiográfica entre nós e oferece-nos no seu conjunto, um semental de ideias e uma carta de rumos da ficção de José Saramago até à data. Nele se fundem as escritas de uma complexa e rica tradição literária e a experiência de um tempo vivido nos logros do quotidiano e das vicissitudes da história, que será a substância da própria arte."

Luís Rebelo de Sousa

"(...) livro avessamente experimental que se aprofunda na prescrutação da identidade criativa de um narrador-personagem que trafega do universo da representação visual para o da escrita, impulsionado por um desejo de mapear sua relação com os hemisférios conflitantes da linguagem criativa, sempre em busca de uma melhor concreção, com as solicitações limitantes, até certo ponto agônicas, de um mundo exterior avassalador, que só encontram momentos de fusão do fenómeno artístico. Se o "Manual" permite uma interpretação a nível de uma autobiografia do intelectual José Saramago às voltas com uma disjunção expressiva, num momento de transição da sociedade que o circunda(...)."

COSTA, Horácio, "O lugar de Saramago na literatura contemporânea" in Folha de S. Paulo, Brasil, Ano 33, 27 de Abril de 1988, pág.7.

"Nunca nenhum escritor português havia tentado até então dentro dos limites do género o exame da arte de representação. Os problemas que aqui se defrontam são os problemas dos realismos dos anos 70. E o pintor narrador do Manual descobre a necessidade do distanciamento em relação ao objecto da sua arte e da sua escrita se nele quer descobrir a verdade e ou as verdades que se ocultam sob aparências. Reconhece assim que o seu projecto do duplo, o segundo retrato que secretamente estava a pintar do mesmo modelo, tão-pouco resultaria porque não havia nele o distanciamento necessário, que só o tempo lhe daria, já que esse retrato era a caricatura de uma caricatura. O Manual mostra, assim, o alvorecer da consciência da História no espirito de um indivíduo mediante a análise qualitativa do tempo que lhe toma a execução da obra de arte. O processo de distanciamento adoptado na mimese não visa outro fim senão o de captar o objecto tal qual ele é, oculto que está debaixo de sucessivas cristalizações culturais que dele fazem o que dele vemos, considerando que a nossa visão das coisas se encontra condicionada pela socialização da imagem."

SOUSA, Luís Rebelo de, "A consciência da história na ficção de José Saramago" in Vértice, Lisboa, II Série, Revista bimestral

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