O que pensa Maria Alzira Seixo...

"O essencial da nossa atenção, (...), concentrar-se-á, (...) sobre os escritos que compõem Deste Mundo e do Outro e A Bagagem do Viajante. Costuma dizer o autor, referindo-se à relação que as crónicas entretecem com a sua restante obra, que «está lá tudo»; e, com efeito, quase tudo, pelo menos, parece já lá estar. Não só no que diz respeito à temática: a relação identidade/alteridade; a articulação entre o homem e a terra; o projecto humano e a sua transposição, ou transcendência; a concepção do homo viator e a sua incidência temporal; não só também no que diz respeito à constelação de motivos preferenciais que preenchem essa temática: a água, a embarcação, a estrela, o silêncio, a pedra, o rumor - mas também nas atitudes dominantes: cepticismo radical no limite do desengano em fulgurações entretecido por um ilimitado entusiasmo na capacidade de construção humana, no projecto que é o sonho; mas também ainda na frase tensa que não se fecha completamente à irrupção lírica, na mordacidade que não exclui a ternura, na ironia que quase sempre traz a cumplicidade do afago.

Estes dois livros, de leitura fascinante, põem-se em contacto com esse tempo essencial que a crónica assume (simultaneamente fragmentado e intenso, dada a brevidade contida de cada texto) - «descobre-se que só violentamente se enchem os dias da vida. E então todo o passado aparece sob uma nova iluminação» DMO, 126 -, percebido por uma sensibilidade, toda olhos e inteligência, que capta o sentido das coisas - «Aqui só se fala de simplezas quotidianas, pequenos acontecimentos, leves fantasias» ou «de verdades que parecem mentiras», B.V., 56- e que se afina de muito perto pela do leitor, quer em atitude de sincronia quer em atitude de provocação - «travo o mais que posso para não me estatelar no tom da gravidade cúmplice, entre cronista e leitor que alguma coisa viveram e que, por isso mesmo, não se tomam demasiadamente a sério», DMO, 79- relatando factos, não tanto pelo amor do relato, mas para fazer vibrar as coisas, o seu sentido, a sua visão, a nossa passagem por elas e o abrir delas em nós, num estado de permanente reconsideração e de descoberta, na abertura de todos os possíveis ao outro lado deles - «cair da tarde (...) gosto de andar pelas ruas da cidade, distraído para os que me conhecem, agudamente atento para todo o desconhecido, como se procurasse decididamente outro mundo», B.V., 99.

Que campos cobrem as crónicas de José Saramago? Os da actualidade (parte-se por vezes de uma notícia nos jornais); os da memória (regressa-se à infância, suas marcas, suas recordações, suas nostalgias); os do ambiente (evoca-se a cidade, outras cidades conhecidas, o campo, os vários tipos de ruralidade); os da tipologia humana (o amola-tesouras, o cego do harmónio, os frequentadores de café, etc., etc.); os de sugestão frásica e vocabular (um verso, uma frase - a sua capacidade evocativa poderão ser matéria para uma crónica); os da cultura (domínio da arte, vultos de escritores, leituras, etc.); miúdas situações do quotidiano anónimo; efabulações de tipo onírico que hesitam entre a vocação para um destinatário infantil e uma acentuada propensão do escritor para os domínios do maravilhoso e do fantástico que mais tarde veremos concretizar-se melhor na sua restante obra. (...)"

SEIXO, Maria Alzira- O Essencial sobre José Saramago, Lisboa, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1987, págs. 15-17.

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