Que significa hoje ser escritor comunista?

Que significa hoje ser escritor comunista? À margem das distinções mais ou menos subtis que poderíamos fazer entre ser-se um escritor comunista e um comunista escritor (não é certamente o mesmo, por exemplo, ser-se jornalista comunista e comunista jornalista...), creio que a pergunta não vai dirigida ao alvo que mais importa. Pelo menos em minha opinião. Tiremos o escritor e perguntemos simplesmente: Que significa ser hoje comunista? Desmoronou-se a União Soviética, forma arrastadas na queda as denominadas democracias populares, a China histórica mudou menos do que se julga, a Coreia do Norte é uma farsa trágica, as mãos dos Estados Unidos continuam a apertar o pescoço de Cuba... Ainda é possível, nesta situação, ser-se comunista? Penso que sim. Com a condição, reconheço que nada materialista, de que não se perca o estado de espírito.

Ser-se comunista ou ser-se socialista é, além de tudo o mais, e tanto como ou ainda mais importante que o resto, um estado de espírito. Neste sentido, foi Ieltsin alguma vez comunista? Foi-o alguma vez Estaline? A epígrafe que pus em Objecto Quase, tirada de A Sagrada Família, contém e explica de modo claro e definitivo o que estou a tentar exprimir. Dizem Marx e Engels: "Se o homem é formado pelas circunstâncias, é necessário formar as circunstâncias humanamente". Está aqui tudo. Só um "estado de espírito comunista" pode ter presente, como regra de pensamento e de conduta, estas palavras. Em todas as circunstâncias."

José Saramago, Público, 10 de Outubro de 1998

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