A Ibéria em busca dum destino

"«Aqui onde o mar se acabou e a terra espera», as últimas palavras de O Ano da Morte de Ricardo Reis são a amarra que se parte para o largar de A Jangada de Pedra(...).

A terra, neste caso, não é só Portugal, mas Portugal e Espanha, a Península. Aquilo porque a terra espera é tão-só o reencontro com o seu destino ibérico, à deriva.

A ideia chave do (...) romance de Saramago - tal como no Memorial do Convento e em O Ano da Morte de Ricardo Reis - é outra vez fabulosa. E se escreve «fabulosa» é porque aqui, de novo, ainda, a grandeza imensa de uma fábula.

Com uma vara de negrilho Joana Carda faz um risco no chão. Joaquim Sassa com as mãos lança uma pedra ao mar. Um bando de estorninhos acompanha no seu voo colectivo as andanças de José Anaiço. Maria Guavaira desfaz um pé de meia. Sentado, Pedro Orce sente a terra a tremer.

E a terra treme. Ou melhor, começa a quebrar-se. Fendem-se, lá no Norte, ao meio, os Pirinéus e a Península Ibérica transforma-se numa ilha, trazendo agarrada a si Andorra, largando Gibraltar no meio do mar.

E esta ilha hei-la que voga pelo Atlântico, sem rumo certo; ora ao encontro dos Açores, ora para os lados do Canadá, ora, por fim, à deriva entre África e a América do Sul."

SILVA, Rodrigues da, "A Ibéria em busca dum destino", in Diário Popular, Lisboa, 11 de Novembro de 1986

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