In Nomine Dei

É mais uma experiência do autor no campo dramático. Só que se trata de uma experiência diferente pois tinha um objectivo, também ele diferente: seria a base para o libreto de uma ópera a exibir na Alemanha, de onde também surgiu o inesperado convite para Saramago mergulhar num episódio histórico marcado pela tragédia: o dos Anabaptistas em Münster.

Passada a surpresa inicial por este convite, Saramago acabou por aceitar. Percebendo-se porquê: o tema permitia-lhe abordar uma questão que lhe é muito grata, a da intolerância religiosa e do escândalo causado pelas guerras «fraticidas» entre cristãos de tendências diversas. Tema, aliás, já focado em obras anteriores e especialmente no controverso Evangelho segundo Jesus Cristo.

Vejamos o que o autor escreveu como apresentação de In Nomine Dei:

« Entre o homem, com a sua razão, e os animais, com o seu instinto quem afinal, estará mais bem dotado para o governo da vida? Se os cães tivessem inventado um deus, brigariam por diferenças de opinião quanto ao nome e dar-lhe, Perdigueiro fosse, ou Lobo-d'Alsácia? E, no caso de estarem de acordo quanto ao apelativo, andariam, gerações após gerações, a morder-se mutuamente por causa da forma das orelhas ou do tefado da causa do seu canino deus?»

«Que não sejam estas palavras tomadas como uma nova falta de respeito às coisas da religião, a juntar à Segunda Vida de Francisco de Assis e ao Evangelho segundo Jesus Cristo. Não é culpa minha nem do meu discreto ateísmo se em Münster, no século XVI, como em tantos outros tempos e lugares, católicos e protestantes andaram a trucidar-se uns aos outros em nome do mesmo Deus - In Nomine Dei- para virem a alcançar, na eternidade, o mesmo Paraíso. Os acontecimentos descritos nesta peça representam, tão-só, um trágico capítulo da longa e, pelos vistos, irremediável história da intolerância humana. Que leiam assim, e assim o entendam, crentes e não crentes, e farão, talvez, um favor a si próprios. Os animais, claro está, não precisa.»(...)"

Informação retirada d' In Nomine Dei, Lisboa, Editorial Caminho, 1993

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