Linguagem

"A obra romanesca de José Saramago é marcada por dois gestos verbais cuja conexão gostaria de chamar a atenção. Por um lado, trata-se de uma forma de frase e designadamente de uma pontuação que aparece como característica, e, por outro lado, daquilo que se pode descrever como uma apropriação activa da herança literária, cruzada com a invenção e a imitação de formas da coloquialidade mais comum. A sua frase parece por vezes conter entre dois pontos finais várias frases, ditas no mínimo por duas personagens e frequentemente por três (sendo que uma dessas personagens pode ser a do narrador). Essas frases, contidas numa, são separadas por vírgulas que podem estar a substituir pontos de interrogação ou de exclamação, ou mesmo pontos finais; e os seus limites, a separação dos seus "enunciadores", são dados apenas pela maiúscula inicial de uma palavra que vem depois de uma vírgula. Estamos perante uma frase plurivocal: é como se fossem vários a dizer uma frase, e essa frase, que é um acontecimento de diálogo, pode então comportar o confronto de pontos de vista. Este modo de frasear produz efeitos rítmicos e prosódicos, percepcionados por uma espécie de ouvido mental, e coopera com a construção de uma imagem ou de um efeito de narrador oral, participante activo naquilo que conta. Entretanto, pela sua dimensão plurivocal, e sobretudo quando a ligamos a outros traços do universo romanesco que ela ajuda a construir, esta forma de frase produz um outro efeito particularmente importante: ela mostra a radical socialidade da linguagem, de qualquer língua, e de qualquer acto de fala. Mostra aquilo que em alguma teoria da linguagem se tematiza, quando se diz que nunca ninguém diz sozinho uma frase, há sempre o outro que a ouve, o outro da compreensão, da resposta, ou da dissensão. Mesmo na câmara íntima de cada um, a frase que só dizemos mentalmente é dita a um desdobramento do eu. Por outro lado, falamos sempre com "as palavras dos outros", deformando-as um pouco, é certo; e por aí passa a possibilidade da individuação e da singularidade. É nesse sentido, também, que o diálogo é a forma básica da fala, e que numa só frase se podem ouvir várias vozes. A plurivocacidade é também polifonia.

Esta assunção da socialidade da linguagem, inscrita como um dispositivo de narração, pode ainda ligar-se ao modo como insistentemente em alguns dos seus romances se joga com esse tipo particular de frases do idioma que são os provérbios, frases supostamente indeformáveis que conteriam, congelado, um sentido único, uma sabedoria monológica. Saramago joga aqui de duas maneiras: por um lado, pode usar o "mesmo" provérbio em contextos diferentes, de modo a mostrar que ele pode significar coisas diversas e, no limite, inversas; por outro lado, deforma e inventa provérbios. Este modo de usar e construir provérbios constitui uma marca de jogo verbal (o homo loquens é também um homo ludens) e um processo de ironização (de "carnavalização") do saber, ou de "dialogismo".

Esta ostensão do uso das "palavras dos outros", de que acima falei, é o que podemos encontrar num outro plano textual: no regime citacional de certos romances de Saramago (por ex., no Ano da Morte de Ricardo Reis), e mais amplamente no modo como ele se apropria de registos discursivos e estilísticos da tradição literária. Por aqui, passa agora a dimensão textual (escrita) da narração, que "corrige" a imagem do narrador oral, a citação (assinalada ou não), glosa e deformação de versos de Pessoa- Ricardo Reis, a transformação de uma fórmula de Camões na primeira e na última frases desse livro "sobre" Reis, as revisitações do barroco, a imitação de ritmos sintácticos e construções retóricas do padre António Vieira (que abrem, por exemplo, a Viagem a Portugal), os ecos de Garret ou de Camilo, constituem mais do que um gesto de integração no cânone, mais do que homenagens aos antepassados. Cruzam-se com os gestos de imitação da oralidade e das vozes populares e são uma forma de apropriação autoconstrutiva, um operador de historicização transtemporal. Por aí, à possibilidade de dissolução de uma identidade cultural nacional (e nisso reside um dos papéis propiciadores de Viagem a Portugal, observados por Maria Alzira Seixo), o romance responde, não pela rigidificação de uma suposta identidade monológica, mas antes pela construção de uma identidade dialógica, social e historicamente heterogénea."

GUSMÃO, Manuel, Linguagem e história segundo José Saramago, in Vida Mundial, Novembro, 1998

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