O que pensa Joaquim Matos...

"(...) Um conto (ou um romance) nunca é uma estória para Saramago. Será, quando muito, uma história de estórias. Uma palavra, uma ideia, um objecto, uma atitude, um acontecimento esporádico, etc., rapidamente se transformam em estórias, parecendo retalhar o corpo da narrativa, mas preservando-o intacto, pois esse corpo, histórico, na linha da sua concepção, é descontínuo, não pondo em causa a unicidade. Apetece interrogar por que é que Saramago interroga utiliza as palavras conto e romance. Apetece, não por qualquer hesitação, mas para provocar um esclarecimento, neste contexto, pertinente. Um e outro são utilizados ortodoxamente. O primeiro, não perde a sua natureza episódica, o segundo, não perde a sua natureza sequencial.

O autor de Objecto Quase, com a «libertinagem» da sua escrita cria potencialidades estéticas que podem passar desapercebidas. As divagações aparentemente furtuitas estão para o episódio como um coro para um solo: reforçam-no. O episódio adquire uma ressonância que o amplia, por ela se abrindo o espaço para a crítica, onde o humor e a sátira engordam, pela insinuação, pela ironia, pela afirmação, parecendo perder-se a pertinência em favor da loquacidade. a voz coloca-se numa direcção para ser ouvida numa direcção oposta. Falando de alhos, está a falar de bugalhos."

Cadeira

Embargo

Refluxo

Coisas

"A história habita-nos, desde que a conhecemos, humana, mitológica, sombras e silêncios."

Centauro

Desforra

"Neste conjunto de contos, em Objecto Quase, há quase uma sequência, onde a história do homem é montada em painéis, que vão desde a alienação, com opressões internas e externas, actual, até à sua própria natureza, espontânea, amoral, livre: o encontro do jovem e da jovem, no final, em que o silêncio renasce, identificado com a natureza, sobre as cinzas da palavra, que de todos os vírus se tornou portadora."

MATOS, Joaquim, "Objecto Quase- contos para adultos adulterados" in Letras & Letras, Lisboa, Dossier nº49, 19 de Junho de 1991, pág. 11.

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