Reacções

"Sinto orgulho em ser português. Tenho uma grande admiração pelo José Saramago como escritor e sobretudo tenho uma grande admiração pela literatura portuguesa, que hoje vê reconhecido o seu mérito internacional. Tivemos sempre grandes escritores. A língua portuguesa precisava deste certificado de mérito e de maturidade. Finalmente foi José Saramago que nos deu essa grande alegria. Estou muito feliz, felicito José Saramago e felicito Portugal."

Almeida Santos, presidente da Assembleia da República - 1998

"Quero felicitar vivamente José Saramago e com ele todos os escritores portugueses. Já há muito tempo que a literatura portuguesa merecia esta distinção, que é para nós um motivo de profundo orgulho. É um testemunho do reconhecimento internacional do papel de Portugal tem na reconstrução do mundo moderno. Um papel em que a literatura portuguesa sempre se afirmou, com uma enorme pujança."

António Guterres, primeiro-ministro - 1998

"É uma enorme alegria, um grande entusiasmo. É uma grande consagração da literatura e da língua portuguesa, sem dúvida. Mas convém não esquecer que este prémio é sobretudo de José Saramago. Estamos todos alegres, todos felizes, é todo um povo que se orgulha e fica satisfeito, mas é um prémio do José Saramago. É um prémio dado à qualidade literária de um grande, grande escritor. Ainda por cima, uma pessoa que, em sim mesma, é incómoda em algumas das suas atitudes – o que, do meu ponto de vista, torna o prémio ainda mais interessante."

"A vitória é exclusivamente de José Saramago. A vitória de um escritor é sempre um acto solitário. Acredito que Saramago está, neste momento, mais sozinho do que nunca. Que isto não é como a selecção de futebol."

António Mega Ferreira, presidente da administração da Parque Expo - 1998

"José Saramago é uma alma inquieta, de quem espero ainda mais na sua caminhada em busca da verdade. Estou contente, mas preferia que o distinguido tivesse sido Miguel Torga. Nunca li qualquer livro de Saramago, mas fiquei chocado com a forma como tratou a religião católica em ‘O Evangelho segundo Jesus Cristo". É um problema sério de José Saramago. Mas registei com agrado uma expressão recentemente proferida por Saramago, quando afirmou que gostaria de ter fé."

D. António Rafael, bispo de Bragança - 1998

"Não fiquei surpreendido. Obviamente José Saramago é um vencedor, criou o seu público, uma imagem, enfim, é um homem de vitória, portanto tem que ter mérito. E depois tem também um bom ‘lobby’, não brinquemos na forma. Viu-se no episódio de que eu fui protagonista o que foi o ‘lobby’ poderoso de José Saramago, em termos internacionais. Mesmo os jornais de direita de vários países do mundo que têm páginas literárias fizeram campanha por ele. Não revejo a minha posição em relação a ‘O Evangelho segundo Jesus Cristo’. Mas, como cidadão, educado no tempo em que se cultiva o patriotismo, regozijo-me por um português e Portugal terem recebido o Prémio Nobel."

António Sousa Lara, antigo subsecretário de Estado da Cultura

"É com grande alegria e emoção que, em meu nome e em nome do nosso partido, te envio um grande abraço de parabéns. Hoje é um grande dia para Portugal, para a literatura, a cultura e a língua portuguesa e para os valores e ideais que sempre defendeste. É também um grande dia para os militantes do PCP e para todos os ‘levantados do chão’."

Carlos Carvalhas, secretário-geral do PCP

"Foi com grande emoção que recebi a notícia de que Saramago tinha ganho o Nobel. Foi uma emoção esperada, porque há muito mais tempo que a literatura portuguesa o merecia. Representa também a distinção de um escritor que soube aprender a ser um grande escritor, que renova constantemente os temas e a linguagem narrativa e dá uma grande lição de inconformismo. Tem revelado uma extraordinária capacidade para problematizar e repensar a literatura."

Carlos Reis, director da Biblioteca Nacional

"Não suporto a escrita de José Saramago. É uma escrita de moda, cheia de humor, mas de um humor baixo. Não suporto essa escrita."

Czeslaw Milosz, poeta polaco, Nobel da Literatura de 1980

"É uma honra ter recebido o mesmo prémio que José Saramago. Gostaria de felicitá-lo pessoalmente. Encontrei-o o ano passado na Feira de Frankfurt e considero-o uma pessoa admirável."

Dario Fo, Nobel da Literatura de 1998

"José Saramago é um autor de leitura difícil e muito pesada, que insulta abertamente os sentimentos cristãos. O Nobel podia ter sido melhor entregue. Duvido que os membros do júri tenham lido os seus livros. O Nobel é, no entanto, uma honra para a língua portuguesa."

D. Duarte Pio, pretendente à coroa portuguesa

"Saúdo fraternalmente José Saramago, como homem e como escritor. Como homem, pela capacidade de intervenção e testemunho, da qual sempre deu provas ao longo da vida – tenha-se ou não concordado com ele em vários momentos. Como escritor, porque os temas que aborda, as interrogações que formula e as respostas que procura dar têm uma dimensão de facto mundial e global e, finalmente, porque é a consagração do português."

Jorge Sampaio, Presidente da República

"Saramago ganhou um prémio porque conseguiu conjugar de modo excepcional problemáticas nacionais com questões universais, construindo alegorias, arquétipos e mitos que ultrapassam fronteiras. E fê-lo de modo novo, através de um trabalho de linguagem e de construção narrativa extremamente inovador, que exige do leitor o constante salto do real para o fantástico, do conhecido para o sobrenatural, do prosaico para o insólito, e confronta-o com a multiplicidade contraditória da realidade humana, num clima de plenitude alegórica, de busca moderna e de oscilação ontológica pós-moderna. Saramago ganhou porque é um escritor ‘jovem’. Os dois seus últimos romances são a prova disso: revelam momentos de viragem na sua obra, indiciando que Saramago, no seu percurso de escritor recusa o imobilismo, viaja de modo idêntico às suas personagens."

Isabel Pires de Lima, professora da Faculdade de Letras do Porto

"Este é o prémio mais justo dos últimos 15 anos. Durante todos os anos em que foi atribuído o Nobel, nunca tinha sido reconhecido este bloco linguístico de mais de 200 milhões de pessoas. Estávamos à espera há muito tempo desta notícia, com aquela angústia de quem não vê chegar as malas no aeroporto. Desta vez chegou. É justo. Saramago merece o Nobel."

Luciana Stegagno Picchio, especialista italiana em literatura portuguesa

"Até que enfim! Até que enfim temos um Nobel para a literatura de expressão portuguesa! Foi um acto de justiça, porque a nossa literatura tem uma grande qualidade, tal como a literatura africana e brasileira de expressão portuguesa tem grande qualidade. Mas Saramago é, realmente, um escritor universal. Não nos podemos esquecer que Saramago é hoje o escritor português mais do mundo".

Mário Soares, ex-Presidente da República

"Penso que o Nobel é uma acto de justiça à língua e à literatura portuguesa, que chega, pelo menos, com 20 anos de atraso. Mas já se tinha percebido que, mais ano menos ano, ele havia de chegar e para o receber só poderiam ser Saramago ou Lobo Antunes, os melhores divulgados e promovidos no estrangeiro. Coube a sorte a Saramago, para quem o Nobel ainda chegou a tempo, ao contrário de outros, como Torga, Nemésio ou Jorge de Sena. Pessoalmente, rompo o consenso nacional, porque acho que Saramago escreve muito bem, mas não é um grande escritor. Felizmente, o júri do Nobel não pensou o mesmo que eu."

Miguel Sousa Tavares, jornalista

"Recebi a notícia quase incrédula. Estou muito emocionada. Mas a verdade é que a gente acaba sempre por pensar ‘talvez este ano venha a acontecer’. Mas pela primeira vez este ano passou-me completamente a data do Nobel da Literatura, embora soubesse que ele era efectivamente mais uma vez candidato. Também acho que era tempo de a literatura portuguesa ser reconhecida, porque temos efectivamente muito bons escritores – temos e tivemos – e já fazia falta um Nobel para a língua portuguesa. E fico muito feliz por ter sido ele o escolhido."

Violante Saramago Matos, filha de José Saramago, vereadora do PS na Câmara do Funchal

As contra-reacções

Retiradas de Público, 9 de Out. 98 e de O Independente, 9 de out 98

[ CITI ]