Nota de José Saramago

"Esta compilação de alguns dos textos que ao longo de quase dois anos foram publicados no Diário de Lisboa (anonimamente os publiquei, pois representavam o que então se entendeu ser a opinião daquele jornal), poderia, em verdade, receber agora o título de regresso à procedência, uma vez que por este modo se identifica publicamente o autor. Mas um título assim sugeriria talvez que as mensagens lançadas no circuito da informação vieram devolvidas ao remetente por não encontrarem destinatário - caso em que a palavra circuito estaria exacta e a propósito, porquanto do circuito é natureza e definição terminar onde começa... aceite-se que a ideia me não agrade, aceite-se que, pelo contrário, obedeço a um pequeno movimento de orgulho (satisfação, se orgulho parece demasiado) pelo mérito de um trabalho de intervenção política (cívica, se mais uma vez caio em exagero) que ocupou lugar digno no processo de esclarecimento em que andamos empenhados. Muito do que então escrevi não ultrapassa o nível do circunstancial, e por isso não tem cabimento neste livro; por outro lado, alguma coisa que no DL apareceu, sob a mesma rubrica, em ocasiões de ausência minha, não me pertence: reivindique quem deve a paternidade de tais escritos, e se alguns deles eu próprio subscreveria, outros obedeceram a motivos que, felizmente, por imediata transparência, nunca me poderiam ser atribuídos... Faça o leitor de boa memória a distinção e eu nem me dou por satisfeito.

Entre os artigos, alguns há que, redigidos na sua altura apenas agora vêem a luz do dia: o facto não precisa explicação. Permita-se-me, contudo, que eu lamente o que nem sequer pude escrever, só porque de antemão sabia que não valia a pena. (Mas recuso, neste justo momento, a fácil complacência de me louvar no que não cheguei a fazer...).

Remata-se, na data em que escrevo esta breve nota de apresentação, a minha actividade de editorialista do DL. Quero acreditar que o trabalho que realizei teve alguma utilidade. Doutra maneira não me seria possível continuar. E eu vou continuar.

Ainda uma advertência. Entre a arrumação por temas, que faria avultar inevitáveis repetições, e a simples obediência cronológica, preferiu-se esta. Tem, ao menos, a virtude de mostrar no correr do tempo, o correr dos casos..."

31 de Dezembro de 1973

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