PCP, 1989

Em Dezembro de 1989, Jorge Sampaio, então líder do PS, era eleito presidente da Câmara de Lisboa à frente de uma histórica ligação entre PS e o PCP. Ao seu lado, como presidente da Assembleia Municipal, foi eleito o escritor e militante comunista José Saramago. A cadeira do poder foi ocupada por brevíssimo tempo. É que Saramago estava empenhado na contestação que era então feita à orientação política imprimida ao PCP pela direcção dos comunistas portugueses. Face ao clima de críticas e acusações mútuas entre contestatários e direcção, Saramago bateu com a porta.

Recordemos: alguns militantes comunistas tinham-se organizado numa associação política, o INES. Saramago não fazia parte, mas estava do mesmo lado da barricada. O clima de confrontação aumentava. Cunhal aparece no 69º aniversário do PCP, em 6 de Março de 1990, para apontar o dedo aos militantes que faziam críticas. Por esses dias no Avante! sai um artigo assinado pelo então membro da comissão política Jorge Araújo, em que este aponta ponto por ponto os "pecados" do INES. Saramago pede um encontro com Álvaro Cunhal. Conversam durante algumas horas. E dada um ficou com a sua razão. Só que Saramago abandonou os Paços do Concelho de Lisboa.

As divergências ideológicas entre o escritor e a liderança de Cunhal mantiveram-se, mas Saramago fez questão de nunca abandonar o PCP. Nem de deixar de acreditar que é possível ser comunista hoje.

In Público, As polémicas de Saramago, 9 de Outubro de 1998

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