A perfeição estilística da prosa de Saramago

"Será um mago Saramago? A pergunta pode parecer ingénua, mas surge após a leitura de História do Cerco de Lisboa, romance em que o autor português justifica inteiramente as palavras elogiosas emitidas por críticos de respeito como Vilma Arêas ("Ele reinventou o romance histórico") e Benjamim Abdala Jr. ("É o principal ficcionista português do século XX).

(...) História do Cerco de Lisboa não é um romance histórico como o título parece indicar. Ao contrário, a acção passa-se na actualidade, na capital portuguesa. A narrativa gira em torno de Raimundo Benvindo Soares, um revisor solteiro, de 50 anos, que "não pensa em casar-se". A profissão do protagonista é determinante. Ele trabalha com palavras e torna-se obrigatório lembrar os versos dos poemas "O Lutador" ("Lutar com palavras/ é a luta mais vã./ Entretanto lutamos/ mal rompe a manhã") e "Poema de Sete Faces" ("Mundo mundo vasto mundo/ se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução"), de Carlos Drummond de Andrade.

O revisor chama-se Raimundo e não consegue se estruturar. Ao trabalhar nas provas de um livro de história sobre o cerco de Lisboa, altera o pensamento do autor, afirmando que os cruzados não ajudaram os portugueses a conquistar Lisboa dos Mouros. Estes a dominavam há 360 anos e apenas foram expulsos graças à indispensável ajuda dos cruzados estrangeiros que lutavam ao lado de Afonso Henriques (Rei Afonso I, desde 1139). O erro proposital de Raimundo é descoberto após 13 dias (número da sorte ou do azar?) e leva-o a conhecer Maria Sara, supervisora dos revisores. Apaixonam-se. Paralelamente, ele começa a escrever um romance sobre o cerco de Lisboa. Os factos são falsos, mas perfeitamente aceitáveis como ficção. A aproximação amorosa entre Maria Sara e Raimundo corresponde às vitórias dos portugueses sobre os mouros e ao aumento da afeição entre Ouroama e Mogueime, personagem do revisor (agora autor).

À medida que os muros (históricos, emocionais e ficcionais) são derrubados, cresce o fascínio da prosa de Saramago. Tradutor experiente, o criador de A Jangada de Pedra conhece o valor das palavras e as utiliza como peças de um enigma. Os diálogos são desprovidos da pontuação usual (dois pontos, parágrafo, travessão) e as falas dos locutores se intercalam apenas pela utilização de vírgulas. Nesse sentido, o primeiro momento do romance (o diálogo entre Raimundo e o historiador) é um preciosismo de técnica romanesca.

Ao final de obra, predomina o cosmos, a organização e a completude. Raimundo termina o romance, narrando a vitória dos portugueses. Os cruzados apenas se empenharam no cerco de Lisboa quando receberam a promessa de poder saquear livremente as posses dos muçulmanos. A visão irónica de Saramago é de fina mordacidade. O revisor-autor está feliz junto a Maria Sara, mas começam a surgir dúvidas quanto à futura estabilidade dessa união. Observa-se a preocupação do autor em não permitir a estabilidade completa. O universo é considerado um todo em mutação. A mudança seria a única constante invariável. Em suma, o cosmos é somente transitório.

Memorial do Convento é ainda mais perfeito quanto à forma do que História do Cerco de Lisboa que mesmo assim merece a cuidadosa atenção do leitor. "Escritor mágico", para Darcy Ribeiro, ou "feiticeiro da língua, da ficção e da História", segundo Roberto Pompeu de Toledo, José Saramago é um verdadeiro mago na arte de dominar as palavras. Considera-as meras expressões de pensar. Assim como Borges, concede a linguagem como ficção, jogo e representação. O bruxo argentino e o mago português, guardadas as devidas proporções, possuem o poder de demiurgos perante as ambiguidades e plurissignificações da escrita.

Fundindo a História à ficção, o amor à Aguerra, a escrita à revisão, Saramago perpetra sua magia e enfeitiça, mostrando o alto nível da ficção portuguesa neste século e alertando que a única realidade é a palavra, elemento basilar para a construção das máscaras e espelhos que constituem o plurifacetado universo lúdico da vida."

D'AMBRÓSIO, Óscar, "A perfeição estilística da prosa de Saramago" in Jornal da Tarde, São Paulo, Brasil, 15 de Abril 1989.

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