O quinto evangelista

"(...) Saramago foi buscar nas escrituras a sua linha condutora. E o fez com uma liberdade capaz de deixar os católicos mais fervoroso de cabelo em pé e a Igreja a postos para mais uma cruzada. A Santa Sé nunca viu com bons olhos qualquer tipo de trabalho que, de uma forma ou outra, fosse contra a "história oficial" de Jesus relatada na Bíblia pelos quatro evangelistas. Mesmo um livro como A última tentação de Cristo, do grego Nikos Kazantizakis, que trabalha sobre um possível delírio "mundano" de Jesus, mas que não deixa de ser respeitoso, foi olhado de forma torta pela Igreja. Para não se falar da versão totalmente livre feita pelo cineasta francês Jean-Luc Gordad em Je vous salue Marie, que foi execrada por católicos de todo o mundo.

O Evangelho segundo Jesus Cristo corre o risco de ser encarada como uma versão lusitana da obra de Godard. Não que o escritor cometa alguma heresia do tipo colocar Maria como jogadora de basquete. Não é o caso. Jesus, Maria e José vivem na Galileia de 2 mil anos atrás, como reza a bíblia. O que torna este livro destinado ao escândalo é Saramago impor à história uma visão mundana dos factos relativos ao Nazareno e chegar a tratá-lo com senso de humor. Por exemplo: logo no primeiro capítulo, o romancista português narra o acto sexual de Maria e José, quando Jesus viria a ser concebido. (...) Essas poucas linhas são o suficiente para jogar por terra, na visão de Saramago, o milagre da Imaculada Concepção.

"O que quis fazer foi encontrar a vida de Jesus a partir do ponto de vista actual, sem me esquecer do mundo e da época em que vivo", explica-se Saramago. "Não é uma reeleitura da Bíblia e muito menos uma reconstituição arqueológica dos factos." Nessa sua interpretação, Saramago vai por um caminho que, se se defronta com a visão da Igreja, vai ao encontro de uma corrente dita 'histórica', que prefere ver as personagens bíblicas como seres humanos, e não divinos, localizando-os no contexto sócio-cultural judaico de 20 séculos atrás. Alguns historiadores afirmam. por exemplo, que Jesus não foi o único filho de Maria e José. Saramago faz coro com esta tese e, no seu livro, os pais de Jesus têm mais oito filhos. Jesus é o primogénito que escapou do anonimato.

Mas Saramago não para aí. Ele desmonta, uma a uma, teses sagradas da Bíblia. Dessa forma, o 'anjo da anunciação' aparece para Maria na pele de um mendigo. Os três reis magos transformam-se em pastores e, em vez de ofertarem ao recém-nascido ouro, incenso e mirra, dão a seus pais leite, queijo e pão - presentes mais 'humanamente necessários' para quem chega ao mundo numa manjedoura. Até o envolvimento de Jesus com Maria Madalena é dessacralizada no livro de Saramago. Se a relação é colocada como platónica em A última tentação de Cristo, no Evangelho ela é pintada com todas as cores. Jesus e Madalena, a prostituta arrependida, vivem no mais completo estado de concubinato. (...)

Mas o romance não se fica só nos detalhes picantes - que, de resto, não são uma prerrogativa de Saramago. (...) O Evangelho dá destaque a personagens secundárias. Saramago coloca, por exemplo, José como uma das figuras principais do romance - um lugar que o carpinteiro não possui na Bíblia. Ele é atormentado por crises ferozes de arrependimento desde que Herodes mandou matar todas as crianças de Belém, temendo o nascimento do 'rei de Israel'. José sabia haveria o infanticídio, mas preferiu salvar o próprio filho a alertar a população. Esse complexo de culpa vai acompanhá-lo até à morte, na cruz, aos 33 anos, acusado de terrorismo. Exactamente como o filho.

"Meu livro é, na verdade, a história do encontro de Jesus com Deus", afirma José Saramago, que colocou todas as dúvidas possíveis na cabeça de Cristo, um homem escolhido para uma missão que não esperava realizar. O relacionamento de Jesus com o Pai divino está longe, na visão de Saramago, de ser algo amistoso. Se Jesus é céptico, Deus é vingativo, colérico, sem muita paciência com as dúvidas existenciais do filho. Ao ponto de, pouco antes de morrer na cruz, Jesus afirmar, parafraseando a citação bíblica: "Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez".

Desde já fadado à polémica, o Evangelho segundo Jesus Cristo não pode ser considerado como a melhor obra de José Saramago - ela está pontos abaixo de trabalhos como O Ano da Morte de Ricardo Reis, Memorial do Convento e História do Cerco de Lisboa, seu livro anterior, publicado em 1989."

ROLLEMBERG, Marcello, "O quinto evangelista" in Isto é Senhor, Brasil, 6 de Novembro de 1991, págs. 68-69.

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