Vaticano hostil. Igreja portuguesa satisfeita
«O órgão oficial do Vaticano, LOsservatore Romano, inquietava-se nas sua edição de quinta-feira [8 de Outubro] com a atribuição, pela Academia sueca de Estocolmo, do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago. É uma "escolha política", Saramago "continua a ser um comunista inveterado", afirmava aquele diário.
O principal argumento contra o Nobel português é o livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, uma prova, segundo LOsservatore Romano, da "visão substancialmente anti-religiosa de Saramago." Isto para não falar de O Memorial do Convento, que "exprime toda a veia anti-clerical do escritor", acrescenta o órgão oficial da Igreja de Roma.
As reacções da Igreja portuguesa foram, pelo contrário, de satisfação com a escolha do Nobel da Literatura. O secretário da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Januário Torgal Ferreira, criticou mesmo as posições de L´Osservatore Romano, considerando-as "demasiado redutoras". "Já não estamos nos tempos do Índex. Que uma pessoa não partilhe ideologias comunistas ou socialistas, como é o meu caso (...), é perfeitamente legitimo. Acho que nestas, como noutras coisas, a arte é perfeitamente autónoma", declarava aquele dignatário da Igreja Portuguesa.
O bispo resignatário de Setúbal, D. Manuel Martins, foi mais longe e disse à Rádio Renascença estar "extraordinariamente feliz com a atribuição de um Prémio Nobel a um compatriota". E acrescentou que ficaria muito contente se José Saramago, "que escreve lindamente, se deixasse iluminar por ideais cristãos, já que, infelizmente, nessa linha deixa muito a desejar."»
I.B., Público, 10 de Dezembro, 1998
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