O que pensa Maria Alzira Seixo...

"EXERCÍCIO DA CRÓNICA"

"A primeira notoriedade de José Saramago adveio-lhe da sua actividade de cronista, através de textos publicados em A Capital (1968-1969) e no Jornal do Fundão (1971-1972), mais ou menos contemporâneos dos seus livros de poesia. Reunidos em volume, tais textos dão origem às colectâneas Deste Mundo e do Outro (1971) e A Bagagem do Viajante (1973), aliás seguidos pouco depois de outros dois livros de matéria assimilável, As Opiniões Que o DL Teve, de 1974, e Os Apontamentos, de 1976.

(...) Entretanto, há que distinguir as crónicas de Deste Mundo e do Outro e de A Bagagem do Viajante das que formam os conjuntos As Opiniões que o DL Teve e Os Apontamentos. As primeiras são textos jornalísticos (que do jornalismo colhem a sua brevidade e efemeridade) e assumem uma relação directa com a literatura (na medida em que a crónica, partindo da notícia que faz o tempo, dá lugar ao sujeito da escrita que qualquer outro escrito jornalístico, quer no plano da opinião, quer no da sensibilidade); as segundas, de tipo editorialista, eludem a marca mais acentuadamente literária para se proporem como emissões alargadas de uma opinião que se pretende genérica, colectiva, a dos leitores que, na resposta crítica aos acontecimentos do tempo, o jornalista procura representar. Nas Opiniões, Saramago manifesta as interrogações e perplexidades a que podia ter direito a condicionada liberdade de expressão dos tempos do caetanismo; nos Apontamentos (e apenas dois anos mais tarde, portanto), assume uma frontal posição de coincidência com o processo revolucionário de 75, não escamoteando, no entanto (e será bom recordá-lo!), críticas severas a algumas das faces desse processo; dois longos anos, de um lado, seis escassos meses, do outro, em precipitado empenho de construção que se termina pela decepção do seu abalo. É urgente reler estes dois livros à luz do presente, relembrar muitos dos condicionamentos que o imediato ante-25 de Abril impunha à condição humana portuguesa e percorrer com minúcia o modo como o Diário de Notícias acompanhou esse crucial período da nossa história, entre o 11 de Março e o 25 de Novembro, a ver se de uma vez por todas se tenta compreender uma acção que, com irregularidades e deficiências (que aliás o próprio articulista constantemente admite), marcou de modo determinante a vida portuguesa dos tempos da revolução, que sem a suficiente ponderação se tem de modo fácil e leviano constantemente condenado, muitas vezes como alibi para outros erros e para outras formas menos confessadas de influência incerta sobre o processo democrático que, após o 25 de Abril, nos deu ao menos este bem preciso da liberdade. Tendem uns a esquecer que José Saramago foi figura central dessa acção, para poderem agora enaltecer com boa consciência os seus méritos de romancista; outros manterão bem viva a lembrança da sua luta, e com ela farão esmorecer o reconhecimento da importância da sua actividade literária; como se fosse impossível integrar no modelo de uma personalidade humana coerências, contradições, opções de vida, linhas de acção, tudo o que nos faz ser com os outros e dos outros simultaneamente nos diferencia; como se fosse possível (talvez porque não seja vantajoso...) reconhecer o outro na sua especificidade insuspeitada e assim eliminar todo, mas todo, o fanatismo. Do nosso ponto de vista, estas duas colectâneas, que vivem fundamentalmente do jornalismo político e conjuntural, sem pretenderem uma integração imediata nos domínios da literatura, constituem documentos de grande importância para a história da cultura contemporânea, ponto de vista de um grande escritor sobre o tempo que ele ajudou a formar."

SEIXO, Maria Alzira- O Essencial sobre José Saramago, Lisboa, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, Lisboa, 1987, págs.12-14.

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