O que pensa Maria Alzira Seixo...

"Esta peça constitui um grau mais na ficção do tempo histórico, passando para a actualidade o prolongamento da acção do santo e transportando-lhe o significado numa metáfora conjunta e lapidar. Francisco regressa à vida, reencontra todos os que em vida o acompanharam - mas os tempos mudaram e a acção da ordem, agora chamada «companhia» , completamente se alterou. Há, logo de início, uma sensibilização à mudança de sentido das palavras que, sem perderem a sua justeza etimológica, completamente degradam a situação que designam pela perda da sua motivação semântica (o «superior» é agora designado por «presidente»; a «cruz» passa a «cabide»; o «mistério» torna-se «segredo»; e os próprios «hábitos» dos membros adquirem o seu sentido literal moderno reduzindo-se a fardas que só se vestem para entrar na sala de reuniões. (...)

Nesta peça, Saramago retoma de forma muito sua (mas pela primeira vez dramaticamente) as relações entre conhecimento e alteridade, com uma forte implicação temporal, e procura de novo reconverter os exemplos culturais fabulares ou míticos (pelos quais sente inegável fascínio) a uma radical dimensão humana, à qual uma imperiosa necessidade ideológica é reconhecida. Diz Francisco, a terminar: «Agora vou lutar contra a pobreza. É a pobreza que deve ser eliminada do mundo. A pobreza não é santa (...) Tomarei o nome de João, que é o meu nome verdadeiro. Se eu vou para outra vida, outro homem serei»; e outro não é sentido da réplica final da mãe: «Vou ajudar João a escrever a sua primeira página», reconhecendo o renascimento do filho e tomando para com ele uma atitude que adquire toda a sua força quando ligada à frase da Cartilha Maternal de João de Deus que funciona como epígrafe do texto."

SEIXO, Maria Alzira, O Essencial sobre José Saramago, Lisboa, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1987, págs. 36-38.

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